:: José Rodrigo Rodriguez
A banda The Kinks sempre teve urgência em falar dos problemas de seu tempo de forma direta, num tom que os faz soar como uma banda punk avant la lettre. Menos sofisticados do que os Beatles e os Rolling Stones, de quem são contemporâneos, ganham em contundência e, por isso mesmo, parecem ter envelhecido melhor do que a maior parte dos artistas de seu tempo.
A revolução punk que mudou o rock nos anos 70 para torná-lo musicalmente mais simples e direto, teve nos Kinks um precursor imediato, fato reconhecido pelos diversos covers de suas músicas, que não param de ser gravados. Os Kinks sempre se preocuparam em comentar seu tempo, tanto no campo político quanto no campo dos costumes. A letra que traduzimos abaixo é um exemplo claro disso.
História de um affair entre um jovem e transex, trata de um assunto controverso até os dias de hoje com a coragem de falar claramente de desejos que, na maior parte das vezes, permanecem escondidos. Afinal, transexuais ou são motivo de piada, casos de policia (com giletes escondidas na gengiva) ou performers divertidos, mas nunca pessoas interessantes, sedutoras e humanas. Muitos de vocês já devem ter cantarolado seus versos sem se ligar na letra da sensacional Lola:
Eu a conheci num clube no velho Soho
Onde a champanhe tem gosto de Coca Cola
Ela se levantou e me convidou para dançar
Eu perguntei seu nome e numa voz cavernosa, disse: Lola
Bom, eu não sou exatamente um atleta
Ela me apertou forte e quase quebra minha espinha
Oh minha Lola!
Bom, eu não sou idiota, mas eu pude entender
Ela falava como homem e andava como mulher
Oh minha Lola!
Bom, bebemos champanhe e dançamos a noite toda
Sob a luz de velas elétricas
Ela me pegou, me pôs nos seus joelhos
E disse, meu querido, vem para casa comigo.
Bom, eu não sou um cara assim tão passional
Mas ela olhou nos meus olhos, quase me apaixonei por minha Lola
Eu a deixei para lá
E andei até a porta,
Eu caí no chão
E fiquei de joelhos
Então olhei para ela e ela olhou para mim…
Bom, queria que as coisas ficassem assim
É assim que eu queria deixar as coisas para minha Lola
Garotas serão garotos e garotos serão garotas
Este é um mundo virado, confuso e misturado, mas não para Lola
Bom, eu tinha saído de casa há uma semana
E eu nunca tinha beijado uma mulher na vida
Mas Lola sorriu e pegou na minha mão
E disse, meu garoto, vou te fazer homem.
Bom, eu não um sou cara assim tão másculo
Mas eu sei o que sou e sou feliz por ser homem
Também Lola.
Tradução: José Rodrigo Rodriguez
Lola
I met her in a club down in old soho
Where you drink champagne and it tastes just like cherry-cola [lp version:
Coca-cola]
C-o-l-a cola
She walked up to me and she asked me to dance
I asked her her name and in a dark brown voice she said lola
L-o-l-a lola lo-lo-lo-lo lola
Well Im not the worlds most physical guy
But when she squeezed me tight she nearly broke my spine
Oh my lola lo-lo-lo-lo lola
Well Im not dumb but I cant understand
Why she walked like a woman and talked like a man
Oh my lola lo-lo-lo-lo lola lo-lo-lo-lo lola
Well we drank champagne and danced all night
Under electric candlelight
She picked me up and sat me on her knee
And said dear boy wont you come home with me
Well Im not the worlds most passionate guy
But when I looked in her eyes well I almost fell for my lola
Lo-lo-lo-lo lola lo-lo-lo-lo lola
Lola lo-lo-lo-lo lola lo-lo-lo-lo lola
I pushed her away
I walked to the door
I fell to the floor
I got down on my knees
Then I looked at her and she at me
Well thats the way that I want it to stay
And I always want it to be that way for my lola
Lo-lo-lo-lo lola
Girls will be boys and boys will be girls
Its a mixed up muddled up shook up world except for lola
Lo-lo-lo-lo lola
Well I left home just a week before
And Id never ever kissed a woman before
But lola smiled and took me by the hand
And said dear boy Im gonna make you a man
Well Im not the worlds most masculine man
But I know what I am and Im glad Im a man
And so is lola
Lo-lo-lo-lo lola lo-lo-lo-lo lola
Lola lo-lo-lo-lo lola lo-lo-lo-lo lola
11 agosto, 2009
O transex gatinha e os Kinks
Marcadores: rock, The Kinks, transexual
05 abril, 2007
Cadê o bilau do Nicolau? Voltou para a Selva? [“Percy”, The Kinks]
:: Rodrigo Celso
Essa é para quem gosta de trash e odeia a humanidade (vou explicando aos poucos...): “Percy” (1971), filme de Ralph Thomas com trilha sonora dos Kinks.
A história já diz tudo: cientistas desenvolvem uma técnica revolucionária para transplante de pênis e esperam, ansiosamente, por um paciente em que possam testar suas habilidades. Um acidente bizarro faz com que Edwin Anthony perca seu membro viril e se torne o candidato ideal para protagonizar esse momento, histórico para a evolução da cirurgia.
Numa operação de sucesso, Edwin recebe seu novo meninão que, daí em diante, será motivo de sua obsessão. A partir daquele momento, seu objetivo na vida será descobrir a identidade do dono original de seu mastro e, de quebra, testar o besugo com todas as suas ex-amantes. Fato interessante: ao longo do filme, a moças, sempre atentas e detalhistas, não esconderão seu espanto ao reconhecer o imponente gurizão, conhecido de longa data, entre as pernas de outro varão.
No pano de fundo, a esposa de Erwin, mulher ingrata, trai sua confiança com um outro homem. Nesse meio tempo, nosso herói encontra o amor nos braços de uma das ex-amantes do antigo dono de seu ponteiro. A esposa infiel, desconfiada do que se passa com seu marido, fareja dinheiro ao perceber que toda a imprensa britânica deseja saber a identidade do transplantado, mantida em sigilo. O marido, que acabara de abandonar, tornara-se o homem do bilau de um milhão de libras. Qual será o desfecho dessa história eletrizante?
Não vou contar para não estragar a beleza do filme, lançado em DVD na Inglaterra. Além do argumento genial e atores de primeira linha, “Percy", uma mistura de “Os Trapalhões” com pornochanchada, tem sua trilha sonora composta pelos geniais The Kinks. A banda, da mesma época de Beatles e Rolling Stones, é mais conhecida por canções como “Lola” e “You Really Got Me”, regravadas algumas dezenas de vezes.
“Percy” é um de seus discos menos conhecidos e apreciados, mas guarda boas surpresas. A primeira faixa, “God´s Children”, não fosse o efeito cômico produzido ao se ouvir sua letra quando se conhece a história do filme, seria muito comovente. A canção trata de um dos temas prediletos da banda: a utopia de um retorno à natureza e a crítica à tecnologia desumanizadora.
Em “Apeman”, canção de 1970, os Kinks ironizavam a humanidade comparando-a aos macacos, com vantagem para os últimos. “God´s Children” é mais emocional, mas não menos irônica. Afirma que a humanidade não tem direito de transformar seus filhos em máquinas e que devemos preservar nossos corpos como criados por Deus, afinal, somos filhos d’Ele.
Fora do contexto do filme, “God´s Children” pode trazer lágrimas aos olhos dos religiosos e irritar os ateus, defensores da tecnologia. No contexto, é impossível não rir ao ouvi-la enquanto o bravo Erwin caminha pelas esquinas de Londres balançando seu bilau recém transplantado.
Mas as canções que se seguem (entre faixas instrumentais, inclusive uma versão de “Lola”) fazem crer que os Kinks realmente acreditam na letra de “God´s Children”. “The Way We Used To Be”, belíssima, fala do amor perdido, de como ele costumava ser. Um amor que cria um espaço próprio, uma esfera que protege os amantes do mundo, esse lugar duro, cínico e indesejável.
“Moments” segue na mesma trilha. Nela, um amante pede ao outro para que esqueça tudo o que fizeram de errado e pense apenas nas coisas boas, nos momentos em que a felicidade foi possível; em que ela era extática, ou seja, levava ao êxtase. “Animals at the Zoo”, logo a seguir, compara os seres humanos a animais no zoológico, retomando os temas de que falamos acima. Vale a pena ler a letra.
You’re just an animal in the zoo/ Sittin’ round feeling persecuted and abused/ You’re locked up and I’m on the loose/ But I can’t quite tell who’s looking at who/’cause I’m an animal, too (...)
Você não passa de um animal no zoológico/ Sem fazer nada, perseguido e abusado/ Você está preso e eu estou solto/ Mas não sei quem olha para quem/ Pois sou um animal também (...)
God made the heaven and the deep blue sea/But man picked the flowers and he pulled up the trees/God made the moon and the rain and the sun/But man made the money and the bombs and the guns/So we’re all animals, too(...)
Deus fez o céu e o mar azul/O homem colheu as flores e arrancou as árvores/Deus fez a Lua, a chuva e o Sol/O homem o dinheiro, as bombas e as armas/ Somos todos animais também (...)
I’m a prisoner but I got no cage/ I’m locked up but I got no chain/ But the good guys lose and the bad guys win/That’s why you’re looking out and I’m looking in/But we’re all animals, too (...)
Sou um prisioneiro sem jaula/ Estou preso, mas sem correntes/Os caras legais perdem e os maus sempre vencem/Por isso você está olhando para fora e eu para dentro/ Mas somos todos animais também (...)
Como eu disse acima, “Percy” é um dos álbuns menos conhecidos e apreciados dos Kinks. Feito em poucos meses; serviu para cumprir um contato com o qual a banda não estava satisfeita. Mesmo assim, vale a pena. Ao longo de sua carreira, a banda fez vários álbuns conceituais, tratando de política e de temas da atualidade, inglesa e mundial.
Em “Percy”, aproveitando o argumento do filme, os Kinks mostram, como toda sua força, sua face de críticos da tecnologia e da civilização, sempre com ironia e sem apostar no amor como saída. Apenas os Talking Heads no maravilhoso “Blind” de 1988 fariam algo tão forte ao cantar, também ironicamente, uma volta à natureza que incluía a destruição de estacionamentos e lojas do 7-Eleven.
A ironia, tanto nos Kinks quando no disco dos Talking Heads, está no fato de que essa volta à natureza, além de impossível, não é uma promessa de felicidade. Somos todos animais, portanto, devemos voltar para a selva. É isso o que merecemos.
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