11 agosto, 2009

O transex gatinha e os Kinks

:: José Rodrigo Rodriguez

A banda The Kinks sempre teve urgência em falar dos problemas de seu tempo de forma direta, num tom que os faz soar como uma banda punk avant la lettre. Menos sofisticados do que os Beatles e os Rolling Stones, de quem são contemporâneos, ganham em contundência e, por isso mesmo, parecem ter envelhecido melhor do que a maior parte dos artistas de seu tempo.

A revolução punk que mudou o rock nos anos 70 para torná-lo musicalmente mais simples e direto, teve nos Kinks um precursor imediato, fato reconhecido pelos diversos covers de suas músicas, que não param de ser gravados. Os Kinks sempre se preocuparam em comentar seu tempo, tanto no campo político quanto no campo dos costumes. A letra que traduzimos abaixo é um exemplo claro disso.

História de um affair entre um jovem e transex, trata de um assunto controverso até os dias de hoje com a coragem de falar claramente de desejos que, na maior parte das vezes, permanecem escondidos. Afinal, transexuais ou são motivo de piada, casos de policia (com giletes escondidas na gengiva) ou performers divertidos, mas nunca pessoas interessantes, sedutoras e humanas. Muitos de vocês já devem ter cantarolado seus versos sem se ligar na letra da sensacional Lola:



Eu a conheci num clube no velho Soho
Onde a champanhe tem gosto de Coca Cola
Ela se levantou e me convidou para dançar
Eu perguntei seu nome e numa voz cavernosa, disse: Lola

Bom, eu não sou exatamente um atleta
Ela me apertou forte e quase quebra minha espinha
Oh minha Lola!

Bom, eu não sou idiota, mas eu pude entender
Ela falava como homem e andava como mulher
Oh minha Lola!

Bom, bebemos champanhe e dançamos a noite toda
Sob a luz de velas elétricas
Ela me pegou, me pôs nos seus joelhos
E disse, meu querido, vem para casa comigo.

Bom, eu não sou um cara assim tão passional
Mas ela olhou nos meus olhos, quase me apaixonei por minha Lola

Eu a deixei para lá
E andei até a porta,
Eu caí no chão
E fiquei de joelhos
Então olhei para ela e ela olhou para mim…

Bom, queria que as coisas ficassem assim
É assim que eu queria deixar as coisas para minha Lola
Garotas serão garotos e garotos serão garotas
Este é um mundo virado, confuso e misturado, mas não para Lola

Bom, eu tinha saído de casa há uma semana
E eu nunca tinha beijado uma mulher na vida
Mas Lola sorriu e pegou na minha mão
E disse, meu garoto, vou te fazer homem.

Bom, eu não um sou cara assim tão másculo
Mas eu sei o que sou e sou feliz por ser homem
Também Lola.

Tradução: José Rodrigo Rodriguez

Lola

I met her in a club down in old soho
Where you drink champagne and it tastes just like cherry-cola [lp version:
Coca-cola]
C-o-l-a cola
She walked up to me and she asked me to dance
I asked her her name and in a dark brown voice she said lola
L-o-l-a lola lo-lo-lo-lo lola

Well Im not the worlds most physical guy
But when she squeezed me tight she nearly broke my spine
Oh my lola lo-lo-lo-lo lola
Well Im not dumb but I cant understand
Why she walked like a woman and talked like a man
Oh my lola lo-lo-lo-lo lola lo-lo-lo-lo lola

Well we drank champagne and danced all night
Under electric candlelight
She picked me up and sat me on her knee
And said dear boy wont you come home with me
Well Im not the worlds most passionate guy
But when I looked in her eyes well I almost fell for my lola
Lo-lo-lo-lo lola lo-lo-lo-lo lola
Lola lo-lo-lo-lo lola lo-lo-lo-lo lola

I pushed her away
I walked to the door
I fell to the floor
I got down on my knees
Then I looked at her and she at me

Well thats the way that I want it to stay
And I always want it to be that way for my lola
Lo-lo-lo-lo lola
Girls will be boys and boys will be girls
Its a mixed up muddled up shook up world except for lola
Lo-lo-lo-lo lola

Well I left home just a week before
And Id never ever kissed a woman before
But lola smiled and took me by the hand
And said dear boy Im gonna make you a man

Well Im not the worlds most masculine man
But I know what I am and Im glad Im a man
And so is lola
Lo-lo-lo-lo lola lo-lo-lo-lo lola
Lola lo-lo-lo-lo lola lo-lo-lo-lo lola

Festival Folk de Newport

Foi onde o Bob Dylan conquistou os hippies e os ativistas dos anos sessenta e onde eles passaram a odiá-lo. Lendas da música como os Pixies já estiveram por lá também, quase sempre em sets acústicos. Sonho meu cobrir o festival. Rhode Island está meio longe, né? Mas tem gente que pode, fazê o quê? Descubra abaixo quem e como.

Bob Dylan chocando a galera (dá para ouvir as vaias no fundo):


Pixies no Newport (fazendo o inverso do Dylan, amansando o set):


O Ryan Spaulding, do Ryan's Smashing Life, foi para lá e fez, como sempre, uma cobertura legal. Tem muitas fotos.

Clique na imagem para ver como foi o Newport desse ano, que teve Fleet Foxes, Tom Morello (ele mesmo, do Rage Against The Machine) e Sons and Daughters:

10 agosto, 2009

Show das Mercenárias

O clima dos anos 80 domina São Paulo nos últimos tempos. Depois de shows de Fellini e Violeta de Outono, no sábado As Mercenárias fazem a preza na Galeria Olido. Logo menos toca o Harry, no Madame Satã Fest (que foi adiado por causa da gripe súina; agora vai ser dia 03/10).

Tem ainda Garotas Suecas e The Bonsai Kitties. É legal que começa cedo, às 18h. E é de graça. Vamos todos.



As Mercenárias:

Tiger Army [é ruim, mas é bom]

Voltando a postar nessa antiga categoria (ah, o começo dos anos 2000!), uma recomendação para ouvir escondido dos amigos indies e hypes. É difícil, eles nos reprimem, mas eu juro que você pode se empolgar sozinho no seu quarto.

Dessa vez é o Tiger Army, bandinha de psychobilly que esbarra no emo (!). Verdade. Por isso é perigoso sair por aí falando que ouve. O The Living End tem o mesmo problema.

Bom, eu juro que não conto pra ninguém:

Rock soturno da Nova Inglaterra

Este post não se trata bem de um "recomendo" porque ainda não conheço bem o artista em questão. Trata-se de um "prestem atenção se tiverem tempo, o cara deve ser legal". O nome do moço é Ian "E" Adams. Ele próprio bem definiu o que as suas três faixas disponíveis no Myspace parecem ser: Iggy Pop, Roy Orbison e - adição minha - Nick Cave. Rockabilly, punk, essas coisas boas. Tão divertido que acho que vou comprar o disco.

Amigos da cena de Boston participam do disco, como o estranho Eldridge Rodriguez (além de ser o rei da canção melodramática da Nova Inglaterra, é um dos vocalistas da banda pós-Pixies The Beatings).

Deixo aqui um link para download da faixa "Stay Up Late", que lembra o Glasvegas.

22 abril, 2009

A História da Blitz

Lembra da Blitz? Aquela banda dos anos 80 que cantava “Você não soube me amar” (ver vídeo abaixo), falava sobre batata frita e encartava gibis nos LPs! Se você não se lembra ou não conhece, vale a pena descobrir uma das bandas mais divertidas do rock nacional. A Blitz chegou a ser elogiada por Caetano Veloso e Gilberto Gil e fez muito sucesso. O livro As Aventuras da Blitz, de Rodrigo Rodrigues (apresentador do programa Vitrine, da TV Cultura) conta como foi a história do fenômeno sob a perspectiva de alguém que é fã e amigo – o autor chegou a viajar com a banda para registrar alguns shows em vídeo.

Formada no início dos anos 80 no Rio de Janeiro, a Blitz fui uma espécie de fusão entre a banda que acompanhava a cantora Marina Lima e o grupo de teatro Asdrúbal Trouxe o Trombone. Teve como integrantes Lobão (na época, baterista), Evandro Mesquita e Fernanda Abreu. O clima do livro é de total descontração. Mais do que fazer uma reportagem, Rodrigues procura mostrar como era o ambiente da Blitz, as brincadeiras, a intenção de misturar música com teatro e a empolgação dos integrantes. A linguagem também é leve, com gírias, conversas do autor com leitor e trocadilhos com as letras das músicas. Muitas imagens forma recuperadas, algo importante para entender o apelo visual que tinha o grupo carioca.

A história da Blitz realmente merece ser contada, mas o texto de As Aventuras da Blitz abusa da informalidade e isso incomoda. Outro problema é o descaso com a bibliografia no final, que não traz o autor, editora ou ano de publicação dos livros citados.

Quem era fã da Blitz certamente vai se empolgar mais com as referências oitentistas do livro, mas ele ajuda a entender uma parte importante da história do rock nacional.

Veja um dos maiores sucessos da Blitz, "Você não soube me amar":

20 abril, 2009

Caetano segue jovem e em busca do novo

Depois de fazer rock, Caetano volta aos poucos à MPB

Depois de surpreender e fazer um disco de rock (Cê, de 2006), Caetano Veloso volta com sua banda fazendo mais samba. Zii e Zie ainda tem guitarras e temas ligados ao universo da música pop (em Diferentemente uma letra de Madonna é citada), mas as faixas remetem à música brasileira. Mas não aquela MPB antiga e ultrapassada.

Apesar de estar com 67 anos, o novo disco traz um Caetano jovem. Falando de garotas, da praia e de como a Lapa é legal (cool), os treze temas de Zii e Zie fazem uma releitura do samba. Isso é possível justamente porque em Cê, o cantor baiano recrutou músicos mais novos do que ele com a intenção de repaginar seu som. Pedro Sá, Ricardo Dias Gomes e Marcelo Callado tocam os acordes do tradicional ritmo brasileiro sem os vícios de quem já é consagrado e faz isso há anos. Ao violão e à batida, misturam-se distorções e microfonias. Os arranjos são simples, como são no rock, sem que a música seja simplória.

Zii e Zie não é tão forte quanto Cê, mas mostra que Caetano Veloso sabe o que está fazendo: misturando elementos novos ao que é único na nossa música para mantê-la atual e relevante. E além disso, é um disco otimista, que vê os tempos atuais com bons olhos e humor. Caetano está ficando mais velho, mas não um senhor reclamão.

Veja o vídeo de Sem Cais, de Zii e Zie:

06 abril, 2009

O peso ainda está vivo (e cada vez mais pesado)

Adoro música pesada. Seja ela eletrônica, clássica ou jamaicana, é muito bom ouvir batidas fortes, melodias agressivas e até alguns gritos bem dados. Porém, nada como um bom rock da pesada. E uma das minhas bandas heavy favoritas é o Therapy, da Irlanda do Norte.

Já no décimo-segundo disco, o trio lançou faz alguns dias o hiper-pesado Crooked Timber. Baixo e bateria deveriam ser o subtítulo do disco, porque são os instrumentos que dominam e dão o tom em todas as faixas. Melodia, só na voz de Andy Cairns. Aliás, acho que eu nunca tinha ouvido um baixo tão agressivo e tão alto (!).

Nada de genial, mas coerente com a carreira do Therapy?. Faz os fãs, como eu, continuarem a gastar dinheiro com seus discos. E continuarem a ter fé na música pesada, apesar do que o new-metal e o emo fizeram com ela. Deixaram a coisa meio banalizada, meio levinha, apesar de barulhenta. Queridos amigos de olhos pintados e franjas longas, ouçam Crooked Timber e aprendam o que é música pesada de verdade.

Ainda não há previsão de lançamento no Brasil, mas Crooked Timber deve sair em versão nacional, já que desde Suicide Pact - You First (de 2000) todos os discos deles tem chegado a nós.

Veja o vídeo do primeiro single, "Crooked Timber":