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07 maio, 2008

De graça mesmo: o novo álbum do Nine Inch Nails e o bolor




Era mais do que se esperava da vaidade de Trent Reznor. Depois de cobrar apenas cinco dólares por um disco quádruplo (Ghosts I-IV) e de vender milhares de "pacotes especiais" (com CD e vinil) desse mesmo disco, o homem que é uma banda resolveu dar seu disco novo de graça logo de uma vez. Não só isso, ele pôs o álbum sob a licença Creative Commons, permitindo o uso das faixas em podcasts, blogs, remixes, etc.

The Slip tem dez faixas e é uma continuação da lógica iniciada em With Teeth: rock eletrônico pesado, mas menos industrial e mais próximo do pop. Mas ainda não passemos para a crítica musical deste post. Vamos começar pela nossa usual discussão sobre direitos autorais e sobre a internet como veículo de disseminação de conhecimento/arte/entretenimento.

O disco é de graça!
Levando "ao extremo" o que o Radiohead fez com seu último disco, In Rainbows, Trent Reznor pôs à nossa disposição todo o disco sem custo algum. Melhor que os ingleses, ele oferece várias opções de formato de áudio, desde mp3 até arquivos da mais alta qualidade, melhor do que CD. Mas o que o levaria a ser tão bondoso?

Bom, na verdade o disco ainda vai ser lançado em sua versão física, em CD, que será vendido em lojas de maneira convencional. Como In Rainbows também foi, aliás. Tem alguma coisa nessa equação da qual não sabemos. Digo isso porque não acredito que se trate de filantropia em nenhum dos dois casos. Tanto Reznor quanto Yorke e cia. não vão abrir mão de ganhar dinheiro simplesmente para ganhar a simpatia dos fãs (e com razão).

Os fatos comuns aqui são a possibilidade de se obter os discos em questão de graça e o fato de eles serem lançados posteriormente em CD, mesmo após "vazarem" pela mundo todo através da internet. Alguém vai dizer que o Nine Inch Nails ainda tem contrato com a Universal e por isso eles foram obrigados a também disponibilizarem o formato físico do álbum. Não é o caso: o contrato já acabou, a Universal só vai distribuir The Slip. A rigor, ele é como In Rainbows, um disco independente.

Chegamos a uma conclusão? Discos ainda são importantes, certo? Beleza, certo, ainda se ganha muito vendendo CDs. Divulgar na internet é essencial, podemos concluir também. Muito bom. Então estamos diante de um novo parâmetro revolucionário de comercialização da música! Cada vez mais teremos discos de graça, mais artistas lançarão arquivos zip dois meses antes de seu novo CD chegar às lojas! Revolução! Calma lá.

Quem põe música de graça na internet? Responda rápido.
Resposta: bandas independentes. Alguns exemplos são o The Dead Rocks, o The Black and White Years, o Downliners Sekt... E muitas outras MySpace e Last.fm afora. Por que diabos eles nos deixam baixar seu trabalho de graça? Porque eles não vendem discos. Ou se vendem, é um número irrisório, cujos rendimentos são engolidos pelas gravadoras estelionatárias. Vale mais a pena ficar conhecido e conseguir bons shows e tirar uma graninha garantida do que ficar preso a contratos de semi-escravidão criativa ganhando pouco a longo prazo.

E por que as bandas se sujeitam a esse tipo de constrangimento, por que elas assinam contratos com majors, minors e outras subsidiárias das grandes empresas de comercialização de música? Em primeiro lugar porque é muito caro gravar. É preciso um bom estúdio, com bons equipamentos e ótimos profissionais. Segundo, porque o know-how de distribuição e marketing está todo sob o monopólio das grandes gravadoras. O acesso ao meio é extremamente restrito, só entra quem tem cacife e um grande nome por trás.

Meu amigo, adivinhe quem acabou de se tornar independente, quem acabou de fazer o caminho inverso ao de uma banda independente que aspira ser alguém no mercado musical? Radiohead e Nine Inch Nails! Eles esperaram seus contratos expirarem e coincidentemente fizeram coisas parecidas com seus discos agora independentes. No que eles são diferentes das nossas bandas de MySpace e Last.fm lá de cima? Começa pelo estúdio. Milhões de dólares depois, as mais novas bandas independentes têm todo o conhecimento e equipamento para fazer em casa um disco do mesmo nível dos gravados nos grandes estúdios. Outra coisa, mais importante, é o nome. Ambos já são artistas muito famosos com anos de carreira. O empecilho de se fazer conhecido não existe aqui. No fim das contas, o que eles fizeram e estão fazendo é explorar eles mesmos o lucro que antes ficava com a gravadora.

Uma grande vantagem, não? Claro, mas nada muda para as bandas pequenas e sem nome. Essas continuam tendo que lutar por reconhecimento em meio a muita gente e tendo que competir com estratégias comerciais altamente elaboradas desenvolvidas por especialistas. As novas tecnologias de gravação estão reduzindo consideravelmente os custos de gravação de um bom disco, isso temos de reconhecer. Ótimos EPs como o do The Black and White Years talvez não existissem não fosse por isso. O problema, porém, ainda é o de quem determina o que as pessoas vão ouvir e de como isso vai chegar aos consumidores.

Estamos longe, apesar de cada vez mais perto, de um mercado, de uma mídia, de um mundo descentralizado e menos sujeito a monopólios (sejam reais ou culturais) de certos modelos de circulação de música, de certos jeitos de fazer a informação se disseminar. Portanto, não nos animemos com o fato de The Slip ser de graça. Obviamente que não ter de gastar 30 reais com um CD é uma vantagem para mim, um indivíduo com 30 reais a mais no bolso. Só que temos de pensar no contexto maior, na visão de cima da coisa, senão seremos enganados e repetiremos bobagens sem saber do que estamos falando. E faço aqui a minha mea culpa sobre toda a minha empolgação anterior com In Rainbows.

Afinal de contas, o CD é bom?
Depois dessa digressão enorme passemos à parte menos interessante da história. Confesso que esse raciocínio todo me deixou bem mais desanimado com The Slip do antes de começar a escrever. Não que seja um disco ruim, mas sinceramente, o Nine Inch Nails anda se repetindo muito.

Incomoda o fato de o disco ser muito parecido com os dois anteriores, With Teeth e Year Zero. Poderia ser um sinal de coerência, de projeto musical, só que não me parece o caso. Já faz três anos que Trent Reznor nos submete aos mesmos timbres, temas e ruídos. Admiro a coragem mudar o som industrial no NIN para um rock eletrônico mais acessível. O problema é que faltou imaginação. Já em Year Zero, o segundo da "trilogia" se percebia sinais de esgotamento. Ali ainda se identifica a força que Reznor mostrou em mesclar efeitos programados com instrumentos de verdade. Mas também já se percebe que o homem-banda começou a ficar um pouco perdido, sem inspiração.

Previsilibilidade é que faz de The Slip uma decepção. Ele é apenas a repetição de uma fórmula, o resto de uma intenção criativa. "Resto" num sentido negativo, algo requentado, misturado, que não se sabe bem do que se trata. Como quando o molho da carne ensopa o arroz e o purê de batata naquele prato deixado em cima da pia. Ainda é a comida da avó, mas com um aspecto feio, os aromas misturados, a comida fria. Cada grito, baixo distorcido e piano melódico estão bem colocados demais. Um disco pesado de butique (como se dizia dos punks de butique, artificiais).

O Nine Inch Nails está a poucos passos da irrelevância agora. Não há nada a ser dito, nada a ser mostrado. Está como o nosso prato de sobras em cima da pia. Parafraseando Arnaldo Baptista, o que me vem à cabeça depois de um dia de reflexão e audições de The Slip é: será que Trent Reznor vai virar bolor?


Onde baixar: www.nin.com




08 janeiro, 2008

In Rainbows e a tradição




Notícia do Estadão e de muitos outros veículos de comunicação: In Rainbows, do Radiohead, o disco de verdade, palpável, estreou na parada britânica em primeiro lugar, vendendo 50 mil cópias na primeira semana de vendas. Se a grande sacada de vender o disco primeiro em mp3 para evitar os famosos "vazamentos" pela internet já tinham colocado em xeque o modo como a comercialização de música pode ser pensado, certamente que essa notícia ainda vai (ou deveria, pelo menos) dar muito ao que pensar aos executivos das gravadoras.

Sem apostar no poder dos críticos de jornais e revistas (que normalmente recebem cópias dos discos antes de eles chegarem às lojas), o Radiohead conseguiu tanta ou mais mídia do que se fosse usar dos meios "tradicionais". Claro, trata-se de uma das maiores bandas do planeta, é fácil para que eles chamem a atenção. Mas duvido que tudo isso teria acontecido (e continua acontecendo) se a música não fosse realmente cativante (para não dizer ótima). Como já apontamos aqui, a discussão definitivamente tem que passar pela qualidade do que está sendo entregue, da produção (não em um sentido marxista) do artista.

Notemos também que oineditismo da música, o ocultamento o produto em caixas lacradas e o atrelamento a exibição do resultado de um trabalho a uma data de possibilidade de compra não são o segredo para o sucesso. O interesse do público inglês foi tanto que a possibilidade de baixar o disco de graça pela internet não impediu o primeiro lugar do Radiohead nas paradas de venda de discos. Difícil não pensar que ter acesso à obra foi um fator fundamental. Ouvi quem quis, baixou e comprou quem quis.

Longe querer analisar profundamente todas essas repercussões, queremos apontar que novos caminhos estão sugeridos, apesar das limitações. Para entender um pouco melhor as motivações da banda e possíveis explicações para esse empreendimento inovados, recomendo a entrevista de Thom Yorke a David Byrne na revista Wired.


28 dezembro, 2007

O CD que virou suco [FBI e pirataria]

:: Rodrigo Celso

Recentemente, comprei um CD em que havia um espetacular aviso do FBI para informar o consumidor que a pirataria é punida pelas leis federais norte-americanas. A intenção do aviso é, evidentemente, intimidar os compradores. Funcionou.

Mesmo sem ter qualquer intenção de piratear as músicas, fiquei um pouco assustado, afinal, o que eu sei do FBI vem da cultura POP e nela, ele sempre aparece como uma polícia super-poderosa, que sabe tudo e é capaz de tudo. Se os bravos agentes do FBI foram capazes de resolver casos intrincados e prender infratores perigosos, por que não seriam capazes de vir me pegar?

Passados alguns minutos, comecei a me acalmar. FBI ou Polícia Federal; é difícil imaginar que as autoridades seriam capazes de ir atrás de todos os autores de crimes de pirataria e prender cada pessoa que copia um CD sem tê-lo adquirido. São tantos culpados; são tantas as formas de se obter música de graça, que fica difícil ter medo. Pode ser que as autoridades resolvam escolher alguns bodes expiatórios para servirem de exemplo e eu acabe dançando, mas é difícil imaginar que consigam reprimir efetivamente verdadeiras legiões de infratores.

Nada disso é capaz de apagar o fato de que a pirataria é um crime que deve ser punido enquanto permanecer como tal. Nem a polícia nem o Poder Judiciário estão isentos da responsabilidade de reprimir tais práticas. No entanto, a imensa quantidade de criminosos de fato e em potencial espalhados por todo o mundo nos faz refletir.

Faz sentido criminalizar um fato de que tantas pessoas são culpadas e, pior de tudo, que uma parcela cada vez maior da sociedade considera como aceitável, ao menos em algumas de suas formas? Não seria mais inteligente abandonar a estratégia repressiva e pensar em alternativas para lidar com o problema? Alternativas que não exigissem que o FBI intimidasse um inocente comprador de CDs, correndo o risco de desmoralização diante da tarefa hercúlea e impossível de colocar todos os piratas na cadeia?

Parte da sociedade tem insistido no seguinte ponto: é necessário mudar o padrão de comercialização da música e pensar a internet como espaço inescapável para o mercado musical. Ninguém tem um novo modelo, ninguém sabe o que fazer. É evidente que os artistas devem ganhar com a venda de sua música e que seus editores têm direito a uma parte deste bolo. No entanto, parece claro que o uso da linguagem do crime e da pena, neste caso, tem servido apenas para tampar o Sol com a peneira. Trata-se de tentar parar a história e manter uma forma de comércio que já não atende às necessidades do consumidor.

Estou decepcionado com os comerciantes de música quanto a este ponto. Normalmente, o comércio está sempre na frente e é capaz de apresentar ao público alternativas inimagináveis, capazes de maravilhar a todos os compradores. No entanto, a capacidade de inovação, de criação de novos modelos de negócio, desta vez, deixou muito a desejar. A situação é a seguinte: eu não quero comprar um CD completo de determinados artistas; quero experimentar novas faixas, novas bandas, todos os dias sem ter que desembolsar dezenas de reais por isso; em suma, quero pagar, mas não pelos produtos que me tem sido oferecidos.

Eu não sei o que fazer, mas como um grande consumidor de música, penso na comodidade de serviços como a Last FM e a Pandora Box, rádios on line que tocam apenas o tipo de música escolhida pelo ouvinte, sem apresentadores. Serviços como esse, se fossem pagos e abrissem a possibilidade de se adquirir a faixa (ou o CD) que se acabou de ouvir, poderiam ser uma boa alternativa. Os artistas ganhariam pela execução da faixa e por sua eventual aquisição e nós, consumidores, poderíamos pagar pelo acesso às faixas e/ou por sua aquisição, sem correr risco de prisão.

Não sei se esse é o modelo, mas gostaria que alguém surgisse logo com uma solução. Eu quero ser um cidadão respeitável, quero respeitar as leis, pagar minhas contas e cumprir todos os meus deveres com a sociedade, mas não tenho vontade de comprar coisas que não quero, nem de ser submetido a tarefas impossíveis.

Comprar um cacho de bananas quando se quer comer apenas uma é tão irracional quanto comprar um CD inteiro quando se quer ouvir apenas uma faixa. O que é melhor para o vendedor de bananas: passar a vender unidades ou correr o risco de ver os furtos aumentarem, cometidos por consumidores que não desejam comprar um cacho inteiro? Quem sabe funcione punir duramente o furto de bananas?

Comprar bananas indesejadas nao é assim tão ruim. Com as bananas extras pode-se sempre fazer vitaminas, bolos, doces, etc. Mas e com as faixas extras do CD que compramos sem nenhuma vontade? Vamos fazer o que? Suco?

10 dezembro, 2007

In Rainbows, a internet e o futuro


:: Diogo R.


Depois de muito tempo sem dizer nada, acho que o fim do ano é um bom momento para voltar à ativa. Nós começamos esse blog na mesma época do ano passado, motivados pela decepção de ter jogado muito dinheiro fora para assistir a um show meia-boca de B.B. King. Emplacamos um trecho do texto na seção de reclamações do Guia da Folha, foi um orgulho. E percebemos que a vocação da internet para descentralizar a edição de conteúdos seria um meio de entrar em contato com pessoas que compartilhavam da nossa necessidade de pensar a música.

Senti que faltou falar de In Rainbows, do Radiohead. Deveríamos ter saído do limbo naquele momento. Sempre nos propusemos a procurar os fios mais sutis ou mesmo mais reais de discos, artistas. Nosso micro-público respondia muito bem às nossas tentativas de acertar um alvo que estava além da embalagem do rock. “Falhamos” no timing do post. A venda do mais recente disco do Radiohead foi muito mais do que um jeito inovador de vender música, foi também uma inovação no que diz respeito ao status da música no mundo.

Primeiro ponto a ser explorado: o disco foi, até dezembro, lançado exclusivamente na internet. Ao contrário do que aconteceu com Hail To The Thief, que vazou um bom tempo antes do lançamento oficial, In Rainbows foi exposto somente quando a banda decidiu que era a hora. Não me lembro de outro álbum que tenha sido lançado dessa maneira antes desse.

O segundo aspecto importante é o modo como o preço do download do disco foi determinado. Isso deixou algumas mentes inquietas por algumas semanas, inclusive a minha. A tentação de usar “revolução” neste parágrafo é grande, mas deixarei as análises mais finas a cargo dos sociólogos e economistas. Porém, convenhamos, é perturbador pensar em todos os significados que isso tem. De um centavo a 100 mil libras, o consumidor, o cliente, o admirador, curioso, podia simplesmente determinar o quanto achava que um disco valia. A liberdade de atribuir valor a uma certa coisa se tornou um exercício em que a arte entrou em questão não mais como produto de um certo modo de fabricar coisas concretas, mas como um punhado de informação passível de ser avaliado sem qualquer mediação que não a da subjetividade de quem comprou In Rainbows. Que se explodam os encartes, a distribuição de material físico, o preço da gasolina, o turno da fábrica de compact discs, a Zona Franca de Manaus, os impostos. A responsabilidade era sua. Deixamos de passivamente esperar a FNAC da Paulista encomendar uma pilha de CDs para passar o cartão de débito sem ter muito o que fazer porque o preço na Saraiva e no Submarino era mais ou menos o mesmo.

Até aqui essa história deixa em êxtase qualquer um que enxerga a música como algo mais do que um produto. Agora entra o detalhe que é verdadeiramente fantástico disso tudo: a liberdade de atribuir um valor era total. Sim, total. Zero era possível também. Liberdade e responsabilidade de atribuir um valor, de dizer aos cinco homens que vivem de música o quanto o esforço deles merece receber em valores monetários. Liberdade de ter acesso ao trabalho feito, acima de tudo. In Rainbows não é um álbum (pelo menos até ser lançado em CD no ano que vem) porque álbum é algo concreto, cheio de fotos, manuseável, um pedaço de plástico que um dia vai virar entulho . O Radiohead alçou seu disco a um lugar que normalmente não pertence a álbuns, mas sim àqueles shows memoráveis que nunca mais vão ser reproduzidos, nem se forem lançados em DVD. Quem conhece o Radiohead sabe que a música deles nunca se limitou aos álbuns. A força da banda é criar música a partir do que já existe (o que está gravado), mas sem deixar que detalhes de produção limitem a execução ao vivo. In Rainbows já era conhecido de muita gente antes mesmo de sair. As faixas do disco já haviam sido executadas em shows, já circulavam em suas versões ao vivo pela internet.

Hoje em dia são poucas as bandas que ganham dinheiro vendendo discos. Percentualmente, é vergonhoso o que os artistas ganham de royalties em cima da venda de CDs. A gravadora se dá ao luxo de roubar (literalmente) partes de lotes de discos e calcula o quanto o artista recebe sem levar em conta o total de discos produzidos. O artista só recebe sobre o que é vendido de fato, não recebe sobre o que é roubado pela gravadora. Acredito que os integrantes do Radiohead sejam bem ricos hoje em dia. Montar um esquema como esse e ainda conseguir lançar um dos melhores álbuns do ano requer mais do que apenas talento. Certamente, ao abrir mão de ter uma gravadora, de distribuir os discos pelo mundo todo, o Radiohead estava apostando em outro meio de se sustentar. Seria muita falta de bom-senso arriscar tanto em uma empreitada cara só para ser diferente. A verdade é que o dinheiro de verdade está nos shows. E isso nunca faltou para o Radiohead. Eles já estão agendados nos principais festivais europeus do ano que vem.

É muito cedo para podermos ter uma noção de qual será o impacto para o resto da indústria musical. Um fato é que o Radiohead não vai sair no prejuízo com isso tudo. Dificilmente o que foi feito com In Rainbows se tornará um modelo de comercialização (pelo menos nos próximos anos). Mas o impacto foi forte em toda a cadeia produtiva da música. Esse mérito já está garantido.

Terminando o raciocínio com um exemplo que tem muito a ver com a discussão da internet como meio de acesso à “cultura”: In Rainbows foi tão supreendente que acabou sendo assunto em uma entrevista de José Padilha sobre seu filme, Tropa de Elite (que foi o principal tema de conversas de mesa de bar em 2007). Ambos, o disco e o filme, tiveram na internet seu principal meio de veiculação. A fama não veio pelos meios tradicionais, institucionalizados socialmente, de divulgação de “cultura e arte”. A minha pergunta, a dúvida que passou a me guiar depois de assistir (e de ser parte disso tudo também) é: até que ponto a arte poderá ser considerada um bem do artista? Como será possível controlar a distribuição de discos, filmes, mangás, revistas, quando temos um meio disseminador tão poderoso como a rede mundial de computadores? A questão importante é, para mim, o acesso à arte. E parece impossível limitar a Internet. Alguém já se manifestou a esse respeito: o Radiohead.

A resposta que foi dada não discute a quem pertence a gravação, nem o modo pelo qual ela se dissemina; não questiona que não se pague por uma obra. O Radiohead, de uma maneira corajosa, tirou a questão da ilegalidade formal de baixar música da Internet do centro da discussão e nos fez pensar no que significa a arte para quem de fato a aprecia.

PS: no dia de hoje o site de download de In Rainbows foi desativado. Feliz coincidência.

22 abril, 2007

Lobão ou Cordeirão? [o mercado musical precisa de um choque de capitalismo]

:: Rodrigo Celso

Lobão voltou para os braços da Sony, gravadora com a qual brigou há alguns anos. O resultado da briga, muito produtivo, foi a criação da revista “Outra Coisa”, do selo “Universo Paralelo” mais três bons discos independentes; e uma série de mudanças na legislação, inclusive a obrigatoriedade de numerar os CDs. Lobão fez muito barulho na esfera pública, fez boa música e construiu uma série de empreendimentos comerciais de sucesso. Nada mal para um “Cordeirão”.

Para simplificar as coisas, a imprensa criou um antagonismo entre Lobão e as grandes gravadoras que, até onde me lembro, nunca existiu. O inimigo sempre foi a mediocridade dos artistas, a incapacidade de inovar, a falta de transparência nos custos e nas vendas e a prática do jabá, que cria uma reserva de mercado contra a lei, diminuindo o espaço para novos talentos. O inimigo de Lobão, no fim das contas, sempre foi a falta de capitalismo e de meritocracia na música brasileira. As gravadoras não querem correr riscos, não querem competição. Todos querem “jogar” na certeza, sem arriscar um tostão.

A discussão que interessa não é a “sinceridade” de Lobão. A questão é saber qual o efeito dos monopólios sobre a criatividade dos artistas e sobre a formação do público. O que é melhor, grandes gravadoras mundiais, ligadas a grandes conglomerados de mídia, capazes de controlar o mercado pela distribuição de verbas publicitárias para TVs, rádios e revistas (algumas delas de propriedade de empresas “irmãs”), além da oferta de “presentes” para jornalistas (como os “ipods” oferecidos a jornalistas no lançamento do disco de Maria Rita); ou um mercado formado por mais selos médios e pequenos e menos gravadoras grandes; marcado por mais disputa, mais risco e menor possibilidade de controle? Monopólio ou competição? Essa é a escolha.

Escolho a competição. Prefiro que um artista tenha várias opções quando deseje vender seu trabalho. Prefiro revistas, rádios e TVs com maior liberdade editorial; menos dependentes de grandes verbas publicitárias e anunciantes “associados” aos conglomerados de mídia. Prefiro um mundo mais descentralizado, em que haja vários veículos para vários públicos; várias opiniões, várias visões sobre o que seja a boa música. Prefiro que mais artistas e empresários consigam sobreviver do seu trabalho e haja menos mansões, iates e jaguares e mais apartamentos de 4 dormitórios em Perdizes; mais Merivas, mais Safiras e mais pequenos veleiros.

Gostaria de ver o dia em que a palavra "alternativo" não se refira àqueles artistas que, no futuro, formarão o "mainstream" nas grandes gravadoras. Gostaria de ver nascer um mercado plural em que "alternativo" seja sinônimo de ousadia e independência. Ousadia de não ficar mendigando contratos com uma "major"; ousadia de não querer ser uma celebridade, mas apenas um bom músico, com independência criativa e a possibilidade de sobreviver atingindo públicos pequenos e médios. Sem precisar tocar na novela, sem precisar aparecer no Faustão.

Ao voltar a uma grande gravadora e, pior de tudo, levar seu selo junto, Lobão escolheu a segurança dos monopólios ao risco do mercado capitalista competitivo emergente, impulsionado pela internet. Sua ação enfraquece a posição dos defensores da competição e fortalece as “majors”. O selo “Universo Paralelo” vai cumprir uma missão importante: servir de tubo de ensaio para a Sony. Vai ajudar a renovar seu “cast” e evitar que ela se torne obsoleta por repetir as mesmas fórmulas. Todos sabem que uma grande empresa precisa de inovação. Para cada Wolf Maia é preciso um Guel Arraes; para cada Sandy um Lobão.

Trata-se de uma boa jogada comercial que fortalece a posição de Lobão, ratifica seu trabalho de músico criativo e empresário de sucesso e traz criatividade para uma grande gravadora. Nada a condenar, nada a opor, aplausos para Lobão e para a Sony. Eu só pediria, falando em nome dos que defendem a competição, que Lobão deixasse de lado o discurso de defensor do mercado independente. Todos sabem que ele tem serviços prestados nesse campo: provou que é possível construir um selo pequeno que tem boa circulação, divulgação e é capaz de lançar bons artistas com CDs baratos e de qualidade.

No entanto, a partir de agora, Lobão está ao lado dos monopólios. Passou a ser seu braço inovador e criativo: a vanguarda da retaguarda, o primo republicano de uma família de democratas, o grande empresário que vota na esquerda. Não chega a ser um Cordeirão, mas também não dá para fazer pose de Che Guevara. Como ele mesmo disse, sobre seu projeto acústico:

"Estou fazendo esse disco porque mereço e acho que o público merece me ter. Em um país de m... desse, eu privar o público da minha música é uma p... falta de higiene. Para um público que adora Calypso, Chico Buarque, eu sou um colírio, um oásis."(entrevista a Rudney Flores, GAZETA DO POVO)

Lobão não quer ser um artista inovador, de vanguarda, mas sim um inovador do "mainstream", um renovador do POP. Digo tudo isso sem deixar de ouvir e reverenciar seus discos mais recentes e seu excelente acústico MTV. Trata-se de um grande artista POP, de um empresário criativo, de um polêmico nato e de uma personalidade ímpar, capaz de tirar a imprensa de letra e ser ouvido nos meios intelectuais e políticos. Pena ter se alinhado aos interesses das grandes gravadoras.

Sei lá, talvez, se eu estivesse na pele dele, teria feito o mesmo. Como Lobão disse em entrevistas recentes, trata-se, no fim das contas, de pagar as contas: ganhar dinheiro e correr atrás de seus interesses. De qualquer maneira, os defensores da competição e do pluralismo estético e político lamentam a perda de um grande aliado e agradecem pelos serviços prestados. A partir de agora, é cada um para seu lado.

Além disso, é o caso de perguntar: O CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) não tem nada a dizer sobre o mercado musical brasileiro? Além de um assunto artístico, não se trata também de uma questão de concorrência entre empresas? Onde estão os capitalistas desse país? Mudaram para Cuba?

20 abril, 2007

Ouça o Nine Inch Nails de graça




:: Diogo BarbaRuiva

Aproveitando o ensejo do último post, descobri (clicando nas notícias relacionadas na barra lateral) que Year Zero, o recente lançamento do Nine Inch Nails, pode ser ouvido inteiro e de graça no site da banda.

Ponto para Trent Reznor, que teve a louvável atitude de nos dar o poder de decidir se queremos gastar 31 reais num CD. Sábia atitude, inclusive, pois assim ele sai em vantagem em relação a outros artistas que não fazem o mesmo. Afinal, se eu já sei que gosto do disco, se já sei como são as faixas, esse será o primeiro a ir para a cesta de compras. Ainda mais para quem compra pela internet.

Lembremos que ele não é um artista independente nem obscuro e que seu último disco vendeu milhões pelo mundo.

Finalmente alguma luz nas majors.

Clique AQUI para ouvir Year Zero (2007)

Uma resenha já está a caminho.

10 março, 2007

A internet à serviço da criatividade [Einstürzende Neubauten e o mercado crítico]

:: Rodrigo Celso

Esta semana o mundo da música recebeu uma péssima notícia: o projeto experimental Musterhaus da banda Einstürzende Neubauten foi cancelado após dois anos e oito CDs. O Musterhaus é a face mais radical de uma experiência que a banda desenvolve desde 2004 e que continua, apesar de todas as dificuldades. Trata-se de um modelo de financiamento e produção musical inédito, caracterizado pela re-apropriação dos meios de produção pelos músicos: a internet à serviço da criatividade.

Os estudiosos dizem que a internet se desenvolveu, de fato, quando começou a ser utilizada para fins comerciais e isso parece corresponder à verdade. Mas o comércio é apenas uma das dimensões da rede. O Einstürzende nos mostra que a internet pode ser utilizada não apenas para ganhar dinheiro, mas para os fins da criação artística. O que está em jogo aqui, veremos, é a construção de um “mercado crítico” à serviço não do capital, mas dos objetivos fixados pelos criadores.

Antes de prosseguir, uma pausa: para quem não conhece a banda, vale a pena. O grupo surgiu na antiga Alemanha Ocidental no movimento chamado de “rock industrial”. Seus primeiros discos são de uma radicalidade impressionante: letras densas e violentas acompanhadas pelo som de maquinário industrial. Difícil de ouvir, difícil de suportar (como estar vivo...).

É impossível resumir o que veio depois: experimentações as mais variadas; inclusive uma versão impressionante da peça Hamletmaschine de Heiner Müller e um Fausto, ambos disponíveis em CD. A nova experiência desta banda singular é o projeto subversivo que vou comentar aqui.

Funciona assim: você paga 35 Euros (65 se também quiser o DVD) e, no final do ano, recebe um CD inédito que não será comercializado nas lojas. Além disso, ao longo desse período, a banda faz ensaios e seções de gravação ao vivo on line, que ficam arquivadas no site, e libera demos e versões alternativas das músicas. Na condição de fã-mecenas, pode-se ter acesso a fórum permanente que recolhe opiniões sobre o processo de composição das músicas, entre outras coisas.

Paralelamente a este projeto, ainda em funcionamento, havia o Musterhaus, infelizmente interrompido, que veiculava as experiências musicais da banda em quatro CDs anuais (também mediante pagamento). Este ano estava previsto um CD com emissões vocais, a gravação de ruídos de pessoas comendo, entre outras experimentações sonoras.

O Musterhaus levava ao extremo a lógica do projeto: aqui os fãs pagavam para a banda fazer, literalmente, o que lhe desse na telha. "Tudo o que é bom dura pouco", disse a banda no email que avisou seus fãs sobre o fim do projeto, "por isso temos o orgulho de anunciar que o Mustehaus está cancelado".

O processo de integração entre fãs e banda; processo criativo e público, consumidor e produto chegou ao limite no último grande show do Einstürzende. Nele, foi organizado um coral de 100 fãs-mecenas para cantar, ao vivo, no Alten Palast em Berlim.

O edifício, remanescente da antiga Alemanha Oriental, foi demolido após o espetáculo. E não foram apenas as pedras que um dia sustentaram as estruturam da Alemanha dividida que tombaram nesse dia. O Einstürzende tem potencial para mais destruição. Em sua mira agora está o mercado de música e a atividade de criação musical como nós a conhecemos.

Todos sabemos dos efeitos da internet sobre a venda de CDs e sobre o hábito de ouvir música. É uma história antiga: os programas para compartilhar arquivos musicais provocaram a crise na venda de CDs e ações judiciais (até agora perfeitamente inúteis) para tentar conter algo que é mais do que uma mudança no meio físico para a veiculação da música. Trata-se da alteração da base tecnológica que impulsiona o mercado musical.

Quem conhece a história do movimento operário sabe que os Luddistas eram um grupo radical que destruía máquinas para evitar a mecanização da indústria. Tiveram sucesso por muitos anos e chegaram, de fato, a ameaçar a evolução do capitalismo. Hoje, os novos Luddistas da música tentam conter as possibilidades comerciais e criativas da internet, mas em vão. Para cada Kazaa que sai do ar, surgem outros, mais simples, mais fáceis de utilizar e mais interessantes.

O Einstürzende Neubauten e seu projeto de “fãs-mecenas” traz a discussão da internet para um patamar inédito. Acrescenta ao debate comercial a dimensão política ligada diretamente à criação artística. Fique claro: o que eles estão fazendo é um empreendimento comercial, sem dúvida. A banda tira proveiro da internet para atingir consumidores no mundo todo, inclusive este que vos fala, algo difícil de se fazer por outros meios.

A segmentação do mercado sustenta o projeto e a facilidade tecnológica o viabiliza: paga-se pelo Pay Pal, com cartão de crédito, e recebe-se os CDs em casa, com todo o conforto. O site funciona perfeitamente bem, os downloads são fáceis e os vídeos carregam sem problemas.

Mas, além de um empreendimento comercial, trata-se de uma experiência artística que procura aproximar os criadores do público. E ela só é possível em razão da apropriação dos meios de produção pelo artista, que cria (em parte ao vivo), produz e vende seu produto em escala mundial, sem intermediários. Essa ação radical coloca o criador na dependência direta de seus fãs e, mais do que isso, vai demolindo as barreiras que existem entre os dois pólos.

Pode-se acompanhar, ao vivo, a criação das músicas, ensaios, seções de gravação e conversar sobre o processo. O acesso às demos e a versões alternativas é imediato para quem pagou: não vai haver lançamentos caça-níquel no futuro de gravações quase inaudíveis e sem qualquer importância, feitas apenas para extorquir dinheiro de fãs alucinados.

Além disso, o processo de criação musical fica desmistificado e se torna acessível para a apreciação dos fãs. Num dos ensaios que vi, a mesma canção foi repetida à exaustão, com variações na linha do baixo e no som da bateria, até que se alcançasse um resultado satisfatório. Não são gênios trabalhando, mas operários a serviço de sua visão artística.

Quando vi o show no Alten Palast com aqueles 100 fãs cantando no palco, confesso que fiquei emocionado. Num mundo tão sem esperança e ousadia, marcado pela mera adaptação às necessidades do mercado, é impressionante ver alguém usar a inteligência e a criatividade para colocar as ferramentas tecnológicas e comerciais à disposição à serviço da arte.

O projeto do Einstürzende revela uma compreensão muito profunda do que está acontecendo no mundo e deve ser objeto da reflexão de todos nós. Não é uma negação infantil do comércio e do capitalismo, nem a defesa ideológica dos poderes mágicos da internet e da liberdade para se desrespeitar os direitos de autor.

Fique claro: a banda não abre mão de ganhar dinheiro com a autoria de suas músicas. O que eles estão fazendo não se encaixa nem no estrito business, nem no discurso "libertário", às vezes meio ridículo, dos que defendem simplesmente o fim dos direitos do criador sobre sua obra.

Sou obrigado a lembrar a esses “libertários” que o fim do direito à autoria é a consolidação da condição operária. O operário não tem direito de se reconhecer no produto de seu trabalho, nem de ganhar com sua comercialização. Trabalha para comer e deve se contentar com isso.

A ousadia do Einstürzende Neubauten nos permite sair dessa camisa de força ideológica e pensar para além. É inspirador, é subversivo, incomoda a direita do business e a esquerda "libertária". Este efeito contraditório o torna tema obrigatório para qualquer interessado em refletir sobre o mundo de hoje.

Seja-me permitida uma frase para iniciados: onde quer que esteja, Walter Benjamin deve estar rindo, satisfeito com o Einstürzende. A banda compreendeu que, para ser artista nesse mundo, é preciso incorporar ao processo de criação a base material que a torna possível.

Enfim, espero que esta iniciativa não passe despercebida e motive outras ações, outras soluções para a o problema da arte sob o capitalismo. O Einstürzende está fazendo sua parte, tentando viabilizar institucionalmente a possibilidade de colocar a criatividade também à serviço da arte e não apenas da produção de lucro.

Diga-se: a produção de lucro, necessária para que qualquer atividade funcione, é um objetivo secundário e instrumental quando a questão é produzir boa música. Antes a criação, depois o capital; antes o valor de uso, depois o valor de troca.