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06 janeiro, 2009

Falta um dos Stooges

Do G1:


Morre Ron Asheton, guitarrista dos Stooges

Músico foi encontrado morto em casa nesta terça-feira (6).
Com estilo agressivo, banda influenciou movimento punk.

Veja mais AQUI.

08 novembro, 2008

Não basta ser “cool”... [Simply Saucer, Cyborgs Revisited]

:: Rodrigo Celso


Este é um texto da série: bandas “cool” que vêm de lugares nada “cool”. Hamilton, Ontário, Canadá, 1974, uma cidade de menos de 300.000 habitantes, às margens do Lago Ontário, dedicada principalmente à metalurgia. A banda, Simply Saucer, que nunca chegou a lançar um disco (o CD à venda, Cyborgs Revisited é uma compilação tardia), é hoje considerada uma referência para o Rock alternativo canadense e mundial.


A impressão que se tem ao ouvir a banda é que um grupo de jovens de talento, relativamente isolados, teve um monte de idéias geniais sem ter ninguém para mostrar. Quer dizer, sem ter ninguém capaz de levar seu som para um centro cultural que os lançasse aos olhos do mundo. Mistura do Pink Floyd de Syd Barret com Velvet Undergroug e The Stooges, o Simply Saucer é uma espécie de elo perdido entre o rock progressivo e o rock de garagem, como toques de música eletrônica utilizada de forma precursora e original.


Com uma produção contemporânea, a banda poderia ter sido lançada ontem e não deixaria de ser genial. As músicas misturam um humor descompromissado, às vezes negro, como em “Nazi Apocalipse”, com peso e sons climáticos que não desrespeitam o formato da canção de 2 ou 3 minutos, como fariam bandas progressivas e algumas bandas de hard rock como Deep Purple e Led Zeeplin. É difícil acreditar no que se está ouvindo (eu ainda estou tentando absorver a coisa toda...) e, principalmente, que esse som tenha permanecido quase inacessível por tanto tempo.


A esperança atual é que uma coisa como essa nunca mais venha a acontecer. Hoje, uma banda pode estar em qualquer lugar e ser ouvida em nível mundial. Talvez seja verdade, como diz nosso amigo Chris Anderson da Wired, revista especializada na Internet, em seu livro “A Longa Cauda”, hoje é preciso vender pouco de muitos produtos para fazer dinheiro. Muitas bandas vendendo menos, ganhando menos dinheiro no lugar de artistas POP arrasa quarteirão fazendo milhões de dólares. Não sei qual quadro é o melhor, mas pelo menos, no mundo de hoje, tenho quase certeza que o Simply Saucer não teria despontado para o esquecimento. E tenho orgulho de viver no tempo que eles e tantos outros artistas esquecido tem sido redescobertos, celebrados e ouvidos.

01 abril, 2007

Iggy Pop é o tiozinho da Sukita? ["The Weirdness", The Stooges]

:: Rodrigo Celso

Sempre que uma banda extinta se reúne para gravar um álbum, há aqueles que desconfiam da falta de sinceridade da empreitada. A acusação mais comum é a ganância: “estão apenas a fim de ganhar dinheiro”.

Essa conversa me incomoda um pouco, mas eu entendo. Afinal, o rock tem uma ligação estreita com a juventude, que está sempre procurando novidades com as quais possa se identificar. Velhinhos tocando guitarra seriam mais ou menos como tiozinhos numa balada de adolescentes; algo meio ridículo, meio patético, digno de riso e pena. Seriam os Stooges tiozinhos da Sukita?

Respeito quem pensa assim, mas acho que há aqui pelo menos dois preconceitos: o primeiro, coloca a imagem antes da música e o segundo discrimina, ao mesmo tempo, jovens e adultos.
Se a música for boa, realmente importa se é um tiozinho quem a faz? A qualidade do som não deve vir antes? Depois, porque alguém mais velho não pode fazer rock’n’roll? “Ora, porque é ridículo, fala sério”. Bom, o problema é, que nem todo mundo concorda com isso.

Há cada vez mais tiozinhos (as) e vovozinhos (as) que fogem de todos os estereótipos e levam sua vida adulta de uma maneira muito diferente do que se poderia esperar. Isso significa duas coisas: um, que estão pouco ligando para os preconceitos e, segundo, que você, jovem ou adolescente, quando ficar adulto, pode ser aquilo o que quiser.

Hoje em dia, para que um homem ou uma mulher seja considerado um cidadão respeitável não é preciso tomar chá, ouvir música clássica, vestir roupas discretas, ler jornais conservadores e lembrar dos bons e velhos tempos. Há outras maneiras de ser adulto.

Num mundo em que, faz tempo, a juventude deixou de ser a vanguarda estética, política e social; um mundo em que boa parte da população parece interessada apenas em se enquadrar, arrumar um emprego e encher os bolsos de dinheiro, isso é um bom sinal.

Significa que não precisamos contar apenas com a juventude para produzir novidades. Há pessoas inconformadas de todas as idades; um grupo que não se enquadrada completamente no mundo em que vive e busca trazer um pouco de ar fresco para a monotonia do cotidiano.

A propósito, a música dos Stooges é muito boa. Claro, “The Weirdness” nem se compara ao poder e à novidade dos discos antigos. Além disso, não há nele qualquer canção que se candidate a clássico do rock’n’roll. Mas isso não é um problema. Os Stooges não precisam mais mudar o rock porque o rock de hoje ficou muito parecido com os Stooges.

Boa parte das bandas atuais faz um som muito próximo daquele que os Stooges ajudaram a inventar, ainda na década de 60. Por isso, em "The Weirdness" a banda soa vigorosa e atual, como já acontecera em “Skull Ring”, álbum da carreira solo de Iggy Pop. Os tiozinhos ainda mandam muito bem.

Para uma boa parte dos roqueiros, um disco novo do Stooges é equivalente a um novo disco dos Beatles. Sua influência no rock é comparável à do quarteto de Liverpool. Hoje, há mais bandas parecidas com eles do que com os Fab Four. Assim, seja lá o disco que viesse, já seria razão para comemorar.

Mas graças ao Diabo (que é pai do rock), o som de “The Weirdness” ajuda. Não há nada nele que embarace a banda ou os fãs. Se, ainda por cima, os tiozinhos ganharem rios de dinheiro com esse disco, vou ficar muito feliz. Pois eles nunca viram a cor dele durante sua carreira. Como o Velvet Underground e o MC5, os Stooges ficaram maiores quando já não existiam mais. É este o destino de bandas radicais?

Pode ser: quem opta por experimentar; desviar-se do senso comum, precisa criar o próprio mercado. Arriscar-se a fazer um som inusitado significa servir um prato diferente para pessoas acostumadas a comer hambúrguer com batatas fritas.

Hoje, os Stooges não são mais novidade. Todos sabem o que eles significam e o resultado de sua obra está aí, espalhado nos discos de alguns milhares de bandas ao redor do globo. Tanta influência, se não dá dinheiro, deve dar muita satisfação a músicos que não abriram mão do seu som.

Se eu fosse um Stooge, nem me incomodaria com quem olhasse para mim como se eu fosse um tiozinho da Sukita, perdido na balada errada. Afinal, com tiozinhos como esses, aposto que a moça da Sukita não se faria de difícil e iria dar mole, mole...

17 fevereiro, 2007

Sua mamãe já quis te ver morto

Se alguém me perguntar o que me faz gostar de ouvir Rock, o que ele tem de especial em relação a outras formas musicais, eu diria que é a sua capacidade de expressar o ódio na sua forma mais crua: vontade de matar. Em outros estilos, é tudo muito mediado, são muitas palavras, muitas notas, muita enrolação. Só uma canção de Rock é capaz de fazer borbulhar meu sangue e trazer rapidamente à tona sentimentos muito primitivos.

Nesse aspecto, o Rock deve muito ao punk, uma construção social que durou décadas (de "Helter Skelter" dos Beatles, The Kinks etc, passando por Velvet Underground, Stooges e MC5; Ramones, Clash e Sex Pistols; Pixies e Atari Teenage Riot) e acompanhou o embrutecimento e mercantilização do mundo, bem como o esvaziamento relativo das instituições políticas. Quanto mais os cidadãos se sentem longe do poder, quanto mais dominados e impotentes, mais aumenta a vontade de mandar tudo à merda, aumenta a vontade de matar ao invés de votar, protestar, negociar. “No future for you!”

Sem o punk o Rock teria morrido na década de 70. Ele sempre se alimentou dos sentimentos e da insatisfação dos jovens de classe média e proletários. Foi assim desde o começo, na década de 50. O punk simplificou brutalmente o Rock (naquela época domindo pelo Rock progressivo que dialogava com a música sifônica) e, paradoxalmente, aumentou sua capacidade de figuração. Fez com que qualquer um se sentisse capaz de comprar instrumentos baratos e começar sua banda. Bastava saber duas notas. Com o aumento crescente da jornada de trabalho, das distâncias percorridas nas grandes cidades, a população tem cada vez menos tempo livre: como aprender a tocar bem um instrumento?

Grandes músicos de chorinho e samba saíram e ainda saem das classes pobres. Mas a impressão é que isso acontece cada vez menos e se deve a uma certa “classe média baixa” que se forma na periferia em razão da massificação da produção e do consumo. Fazer Rock, Funk e Rap é mais fácil. Quantos anos de estudo são necessários para aprender uma grande canção de Pixinguinha, Tom Jobim, Chico Buarque ou Caetano? Sempre haverá os meninos e meninas que nascem sabendo fazer música: pegam um instrumento e simplesmente saem tocando. Mas essas são exceções que confirmam a regra.

Por essas e por outras, a MPB, já na década de 60 e 70, foi um fenômeno de classe média, da pequena burguesia, que tem tempo livre para aprender música. Já nessa época, a música comercial foi empobrecendo, se industrializando e massificando o Rock, o Funk, o Rap e outras formas musicais cuja construção e execução são mais fáceis.

A própria MPB sofreu com isso e produziu coisas como "Realce" de Gilberto Gil entre outros discos de baixa qualidade musical. Vinicius de Morais juntou-se a Toquinho (depois de ser parceiro de Baden e Tom Jobim...) e produziu as coisas mais medonhas de sua carreira. E assim em diante... Por isso mesmo, foram sendo criadas cisões entre a música comercial e a música de vanguarda, alternativa: aconteceu o mesmo em todos os estilos musicais.

Na maior parte das vezes, vanguarda quer dizer simplesmente música de qualidade. Às vezes o POP nos surpeeende; normalmente é só lixo. De outra parte, bons músicos de vanguarda servem de modelo para "estilos" de sucesso no mercado, afinal, o mercado sempre precisa de um novo "hype". Assim, nesse passo repetitivo, que alterna incursões pela vanguarda e pelo mercado, foi seguindo a indústria musical... até surgir a internet. Esse é um fato novo que aumentou e estilhaçou o mercado em mil pedacinhos, abrindo espaço para novos centros de poder econômico e simbólico. Mas não vou tratar disso aqui. Fica para outra.

Retomando nosso fio, claro, estamos falando em geral: há gênios em todos os estilos, capazes de transformar formas sem graça e repetitivas em canções impressionantes. É só ver o que Stevie Ray Vaughan fez com o Blues, moribundo. De qualquer forma, esses artistas tendem a ficar na margem da indústria cultural. O padrão geral caiu. Hoje, todos tocam menos e pior.

Mas há um outro lado da moeda. A aliança entre custo baixo dos instrumentos (resultado da massificação da produção e do consumo) e facilidade técnica na execução fazem do Rock, do Funk e do Rap antenas muito sensíveis ao que acontece em grande parte da sociedade. A MPB, cada vez mais, torna-se marginal e elitizada. Como a poesia, ela fala para muito poucos. Os que importam, alguns diriam. Pode ser... Mas o fato é que o aumento de sofisticação e sutileza traz como contrapartida dificuldades na comunicação.

A sofisticação pela sofisticação pode resultar na incapacidade total de comunicação com a “sociedade”. O que não é um problema em si: tudo depende do público com que se quer falar. Quantas pessoas leram poetas altamente sofisticados como Paul Celan? Muito poucas, mas seu trabalho pela cultura não é irrelevante, é simplesmente diferente daquele desempenhado por Bob Dylan, Jim Morrison, Johnny Rotten, Black Francis, Thom Yorke, Alec Empire.

Numa sociedade menos desigual, em que as pessoas fossem mais letradas, provavelmente Paul Celan atingiria mais leitores. Mas mesmo num mundo como esse Johnny Rotten não seria menos importante para a cultura. Porque às vezes nos sentimos arrebatados por essa vontade estranha de simplesmente matar alguém. Assim, sem explicação e sem mediação: um sentimento cru e angustiante, muito difícil de compreender e aceitar. Não há verso sofisticado ou melodia complexa que dê conta dele; que consiga aplacar essa vontade de destruir tudo o que mais amamos.

Muitos torcem o nariz para isso. Vêm nessa fúria algo de arcaico, que é preciso esconder e cercar de mediações. Claro, para viver em sociedade, para levar a vida adiante, é preciso fazer tudo isso. Do contrário, estaríamos nos matando uns aos outros. Mas na música, na arte, não. Nesse campo, matar é permitido e pode ser muito saudável. Iggy Pop formulou isso expressamente numa entrevista ao revelar que sua música, na época dos Stooges, era muito influenciada pelo interesse em rituais tribais africanos. Os surrealistas falaram disso expressamente.

O Rock tem sua parte nessa história. Especialmente após o punk, tornou-se capaz de falar de sentimentos de que nenhum outro estilo musical é capaz de falar. Por isso, ainda hoje, assusta e enoja muita gente. Afinal, é preciso muitos anos de análise para aceitar que nossos pais nutrem por nós não apenas amor, mas também ódio.

Em "Psicose" de Alfred Hitchcock, o filho se veste como sua mãe para cometer os assassinatos, na figuração contemporânea mais assustadora do ódio materno aos filhos. O homem feroz, travestido de mulher, mata para conseguir suportar a visão do desejo de matar que um dia divisou nos olhos vidrados de sua amável mamãe.

Não se iluda: sua mãe já quis te ver morto. E você vai querer assassinar seus filhos.

:: postado por Rodrigo Celso – eugarimpo@hotmail.com