Dois discos pra bater a cabeça na parede: The Destroyer, de Alec Empire (veja o texto publicado sobre ele aqui) e The Downward Spiral, do Nine Inch Nails. O primeiro é desconhecido até mesmo dentro da discografia de Empire. Ele mostra sua vocação para DJ (atividade que é sua principal hoje em dia) num cd sem melodia alguma. Se já era difícil identificar notas e acordes punk no Atari Teenage Riot, aqui é pior. A intenção é ser o mais violento possível, quebrar as batidas ao extremo, usar gritos, barulhos estranhos e o que mais estiver ao alcance das pick-ups e CDJs. Música de quem vive em grandes cidades. Experimente ficar preso na Marginal Pinheiros às 18h ao lado de caminhões e motos. As coisas se fundem num som só, que sai tanto dos seus altos falantes quanto do ambiente ao seu redor. Os tons de The Destroyer são os mesmo dos barulhos metálicos e mecânicos da cidade, por isso a fusão tão fácil. Por um instante é possível esquecer que o som está ligado. São Paulo parece embalar o começo de sua noite. Fica mais fácil (ou enlouquecedor) encarar o trânsito assim.
20 abril, 2007
Curtas [Para bater a cabeça na parede]
Dois discos pra bater a cabeça na parede: The Destroyer, de Alec Empire (veja o texto publicado sobre ele aqui) e The Downward Spiral, do Nine Inch Nails. O primeiro é desconhecido até mesmo dentro da discografia de Empire. Ele mostra sua vocação para DJ (atividade que é sua principal hoje em dia) num cd sem melodia alguma. Se já era difícil identificar notas e acordes punk no Atari Teenage Riot, aqui é pior. A intenção é ser o mais violento possível, quebrar as batidas ao extremo, usar gritos, barulhos estranhos e o que mais estiver ao alcance das pick-ups e CDJs. Música de quem vive em grandes cidades. Experimente ficar preso na Marginal Pinheiros às 18h ao lado de caminhões e motos. As coisas se fundem num som só, que sai tanto dos seus altos falantes quanto do ambiente ao seu redor. Os tons de The Destroyer são os mesmo dos barulhos metálicos e mecânicos da cidade, por isso a fusão tão fácil. Por um instante é possível esquecer que o som está ligado. São Paulo parece embalar o começo de sua noite. Fica mais fácil (ou enlouquecedor) encarar o trânsito assim.
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17 fevereiro, 2007
Sua mamãe já quis te ver morto
Se alguém me perguntar o que me faz gostar de ouvir Rock, o que ele tem de especial em relação a outras formas musicais, eu diria que é a sua capacidade de expressar o ódio na sua forma mais crua: vontade de matar. Em outros estilos, é tudo muito mediado, são muitas palavras, muitas notas, muita enrolação. Só uma canção de Rock é capaz de fazer borbulhar meu sangue e trazer rapidamente à tona sentimentos muito primitivos.
Nesse aspecto, o Rock deve muito ao punk, uma construção social que durou décadas (de "Helter Skelter" dos Beatles, The Kinks etc, passando por Velvet Underground, Stooges e MC5; Ramones, Clash e Sex Pistols; Pixies e Atari Teenage Riot) e acompanhou o embrutecimento e mercantilização do mundo, bem como o esvaziamento relativo das instituições políticas. Quanto mais os cidadãos se sentem longe do poder, quanto mais dominados e impotentes, mais aumenta a vontade de mandar tudo à merda, aumenta a vontade de matar ao invés de votar, protestar, negociar. “No future for you!”
Sem o punk o Rock teria morrido na década de 70. Ele sempre se alimentou dos sentimentos e da insatisfação dos jovens de classe média e proletários. Foi assim desde o começo, na década de 50. O punk simplificou brutalmente o Rock (naquela época domindo pelo Rock progressivo que dialogava com a música sifônica) e, paradoxalmente, aumentou sua capacidade de figuração. Fez com que qualquer um se sentisse capaz de comprar instrumentos baratos e começar sua banda. Bastava saber duas notas. Com o aumento crescente da jornada de trabalho, das distâncias percorridas nas grandes cidades, a população tem cada vez menos tempo livre: como aprender a tocar bem um instrumento?
Grandes músicos de chorinho e samba saíram e ainda saem das classes pobres. Mas a impressão é que isso acontece cada vez menos e se deve a uma certa “classe média baixa” que se forma na periferia em razão da massificação da produção e do consumo. Fazer Rock, Funk e Rap é mais fácil. Quantos anos de estudo são necessários para aprender uma grande canção de Pixinguinha, Tom Jobim, Chico Buarque ou Caetano? Sempre haverá os meninos e meninas que nascem sabendo fazer música: pegam um instrumento e simplesmente saem tocando. Mas essas são exceções que confirmam a regra.
Por essas e por outras, a MPB, já na década de 60 e 70, foi um fenômeno de classe média, da pequena burguesia, que tem tempo livre para aprender música. Já nessa época, a música comercial foi empobrecendo, se industrializando e massificando o Rock, o Funk, o Rap e outras formas musicais cuja construção e execução são mais fáceis.
A própria MPB sofreu com isso e produziu coisas como "Realce" de Gilberto Gil entre outros discos de baixa qualidade musical. Vinicius de Morais juntou-se a Toquinho (depois de ser parceiro de Baden e Tom Jobim...) e produziu as coisas mais medonhas de sua carreira. E assim em diante... Por isso mesmo, foram sendo criadas cisões entre a música comercial e a música de vanguarda, alternativa: aconteceu o mesmo em todos os estilos musicais.
Na maior parte das vezes, vanguarda quer dizer simplesmente música de qualidade. Às vezes o POP nos surpeeende; normalmente é só lixo. De outra parte, bons músicos de vanguarda servem de modelo para "estilos" de sucesso no mercado, afinal, o mercado sempre precisa de um novo "hype". Assim, nesse passo repetitivo, que alterna incursões pela vanguarda e pelo mercado, foi seguindo a indústria musical... até surgir a internet. Esse é um fato novo que aumentou e estilhaçou o mercado em mil pedacinhos, abrindo espaço para novos centros de poder econômico e simbólico. Mas não vou tratar disso aqui. Fica para outra.
Retomando nosso fio, claro, estamos falando em geral: há gênios em todos os estilos, capazes de transformar formas sem graça e repetitivas em canções impressionantes. É só ver o que Stevie Ray Vaughan fez com o Blues, moribundo. De qualquer forma, esses artistas tendem a ficar na margem da indústria cultural. O padrão geral caiu. Hoje, todos tocam menos e pior.
Mas há um outro lado da moeda. A aliança entre custo baixo dos instrumentos (resultado da massificação da produção e do consumo) e facilidade técnica na execução fazem do Rock, do Funk e do Rap antenas muito sensíveis ao que acontece em grande parte da sociedade. A MPB, cada vez mais, torna-se marginal e elitizada. Como a poesia, ela fala para muito poucos. Os que importam, alguns diriam. Pode ser... Mas o fato é que o aumento de sofisticação e sutileza traz como contrapartida dificuldades na comunicação.
A sofisticação pela sofisticação pode resultar na incapacidade total de comunicação com a “sociedade”. O que não é um problema em si: tudo depende do público com que se quer falar. Quantas pessoas leram poetas altamente sofisticados como Paul Celan? Muito poucas, mas seu trabalho pela cultura não é irrelevante, é simplesmente diferente daquele desempenhado por Bob Dylan, Jim Morrison, Johnny Rotten, Black Francis, Thom Yorke, Alec Empire.
Numa sociedade menos desigual, em que as pessoas fossem mais letradas, provavelmente Paul Celan atingiria mais leitores. Mas mesmo num mundo como esse Johnny Rotten não seria menos importante para a cultura. Porque às vezes nos sentimos arrebatados por essa vontade estranha de simplesmente matar alguém. Assim, sem explicação e sem mediação: um sentimento cru e angustiante, muito difícil de compreender e aceitar. Não há verso sofisticado ou melodia complexa que dê conta dele; que consiga aplacar essa vontade de destruir tudo o que mais amamos.
Muitos torcem o nariz para isso. Vêm nessa fúria algo de arcaico, que é preciso esconder e cercar de mediações. Claro, para viver em sociedade, para levar a vida adiante, é preciso fazer tudo isso. Do contrário, estaríamos nos matando uns aos outros. Mas na música, na arte, não. Nesse campo, matar é permitido e pode ser muito saudável. Iggy Pop formulou isso expressamente numa entrevista ao revelar que sua música, na época dos Stooges, era muito influenciada pelo interesse em rituais tribais africanos. Os surrealistas falaram disso expressamente.
O Rock tem sua parte nessa história. Especialmente após o punk, tornou-se capaz de falar de sentimentos de que nenhum outro estilo musical é capaz de falar. Por isso, ainda hoje, assusta e enoja muita gente. Afinal, é preciso muitos anos de análise para aceitar que nossos pais nutrem por nós não apenas amor, mas também ódio.
Em "Psicose" de Alfred Hitchcock, o filho se veste como sua mãe para cometer os assassinatos, na figuração contemporânea mais assustadora do ódio materno aos filhos. O homem feroz, travestido de mulher, mata para conseguir suportar a visão do desejo de matar que um dia divisou nos olhos vidrados de sua amável mamãe.
Não se iluda: sua mãe já quis te ver morto. E você vai querer assassinar seus filhos.
:: postado por Rodrigo Celso – eugarimpo@hotmail.com
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12 janeiro, 2007
Rock, violência e política
O Sonic Youth lançou o histórico Day Dream Nation em 1988. A primeira faixa era "Teen Age Riot" e dizia:
Teenage riot in a public station/
Gonna fight and tear it up in a hypernation for you
(Confusão de adolescentes na estação/
vamos lutar e fazê-la em pedaços numa hiper-nação para vocês)
(...)
Looking for a ride to your secret location/
Where the kids are setting up a free-speed nation, for you/
Got a foghorn and a drum and a hammer thats rockin/
And a cord and a pedal and a lock, that’ll do me for now/
(Procurando carona para um local secreto/
Onde os moleques estão preparando uma nação sem limite de velocidade, para você/
Tenho um megafone, uma bateria e um martelo que está balançando/
E uma corda e um pedal e um cadeado, por ora está bom para mim)
O negócio era trancar-se numa garagem e fazer ali a nação que não se podia fazer nas ruas; tocar música e deixar o mundo lá fora explodir. Ou andar sobre as águas como um Cristo impossível, completamente abandonado pelo Pai, gritando repetidamente com toda a raiva do mundo (numa citação clara do Clash): “Eu quero saber/ Devo ir ou devo ficar?”. O que fazer?
Vejam a letra de "Cross the breeze":
Lets go walking on the water/ Come all the way please/
I wanna know/ Should I stay or go?
(Vamos andar sobre as águas/ Venha até o fim, por favor/
Eu quero saber/Devo ficar ou devo ir?)
(…)
Para o Sonic Youth, em várias canções, trata-se de viver uma depressão surda, sentir raiva de tudo sem saber o que fazer para enfrentar o medo de morrer e medo do futuro. Tentar acreditar que se pode fazer o que se quer quando só há ignorância, raiva e impotência:
Close your eyes and make believe/ You can do whatever you please/
I wanna know/ I think I better go
(Feche os olhos e me faça acreditar/ Você pode fazer o que você quiser, por favor/
Eu quero saber/ Acho que devo ir)
(...)
O futuro é incerto e só resta tentar andar sobre as águas sabendo que vamos afundar, sentir raiva diante do desconhecido, perguntar e perguntar sem obter nenhuma resposta:
I’m trying for the future/ Its funny that way/
I wanna know/ I wanna know!
(Estou tentando pelo futuro/ É divertido assim/
Eu quero saber/Eu quero saber)
I took a look into the hate/ It made me feel very up to date/
I wanna know/ Should I stay or go?
(Eu olho para a raiva/ Ela me faz sentir atualizado/
Eu quero saber/ Devo ficar ou devo ir?)
A sensação é de desespero, o medo é de desaparecer como uma chama que se extingue lentamente na brisa (na capa de Day Dream Nation há uma vela acesa). Ficar ou ir? Até o fim, perguntas e perguntas sem resposta:
Hold me tight, down on my knees/ So I dont go burning cross the breeze/
I wanna know/ I wanna know!
(Me segura forte, de joelhos/ Assim eu não queimo na brisa/
Eu quero saber Eu quero saber!)
Na falta de algo para acreditar, resta fazer música e cultivar a melancolia... Mas sem conformar-se completamente. As dúvidas ficam em aberto, a chama permanece acesa.
O Sonic Youth é como um Sex Pistols (despolitizado e niilista) subtraído do cinismo e o Atari Teenage Riot (ATR) é o The Clash (ativista e politizado) que não acredita mais na política.
O ATR começa em 1992, com o nome inspirado na música do Sonic Youth e decide que já é tempo de sair da garagem e ganhar as ruas. Ação direta é a palavra: vamos destruir tudo. Para resolver os problemas políticos (como o racismo), nada de fazer política. A solução é a violência. Revolution Action!!!!!!!!!!!!!!!
ACTION!!!!!!!!!!!!!!
It’s time to live and it’s time to die!
It’s time to live and it’s time to die!
It’s time to live and it’s time to die!
It’s time to live and it’s time to die!
A banda foi criada para combater os neo-nazistas que dominavam a cena eletrônica de Berlim logo após a queda do muro. Oferece como alternativa ao preconceito e ao racismo a violência pura. Chegaram a ser presos por incitar a violência em seus shows. Se eu tivesse que escolher a trilha sonora para uma guerra civil, escolheria "Revolution Action". É o começo do espírito de Seattle, é a Multidão de Antonio Negri em plena ação: não sei bem o que fazer, então vamos quebrar tudo!
Será que ninguém acredita na política no meio do rock alternativo? A música deve ou mostrar a falta de perspectivas do mundo ou pregar a destruição: há outro caminho possível?
Alec Empire, líder do ATR, continua a fazer discos impressionantes como o recente Futurist (2005); sempre pregando a violência, como em "Make ‘em bleed". De outro lado, bandas como Calla, entre tantas outras, levam adiante a sensação de falta de perspectivas e constroem atmosferas etéreas, cheias de climas e letras impressionistas. Ouçam o novo disco do Calla, Collisions (2005).
Ativismo significa destruição? Falta de perspectivas leva, necessariamente, ou à depressão ou à ação direta? Entre pregar a destruição e entregar-se à alienação melancólica - ambas posições que negam a política - haverá outra via? Política não dá bom Rock’n’Roll?
Voltemos ao The Clash e seu apoio a diversos movimentos sociais, inclusive os sandinistas em Sandinista! (1980). Pensemos no Manic Street Preachers e seu disco Know Your Enemy (2001), que critica duramente os Estados Unidos e sua política truculenta na esfera internacional. Temos aqui alternativas?
O que me tranquiliza é perceber que o tempo passa, mas o Rock sempre tem uma resposta; ou melhor, várias respostas, para as questões políticas. Depois de ouvir o que as bandas têm a dizer, resta pôr a cabeça para funcionar e formar nossa própria opinião. Para fazer política e para pensar na política trata-se de ler os filósofos, os cientistas sociais, ouvir o que os políticos têm a dizer e, além disso, ouvir muito Rock'n'Roll.
:: postado por Rodrigo Celso - eugarimpo@hotmail.com
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