09 abril, 2008

Mergulhando de cabeça na Bersuit Vergarabat


:: Diogo BarbaRuiva Rodriguez

Assistir a "La Bersuit" no Monumental de Nuñez (estádio do River Plate) foi extremamente adequado: a banda de múltiplos integrantes não tem fãs, tem torcedores. Desde a antepenúltima banda do festival (a estranhíssima e poser Intoxicados) já se ouviam os gritos de guerra. "Olê olê, olê olê olá, de la cabeza con Bersuit Vergarabat!" foi entoado diversas vezes até o fim da noite, que acabou lá pela uma da manhã.

Pelo que li em alguns veículos da imprensa argentina, o Monumental é uma prova de fogo. Quem consegue sucesso ali acaba virando uma banda respeitada, quem vacila entra no ostracismo musical. Pudera também, os argentinos de fato assistem aos shows. Até o momento em que La Bersuit entrou no palco foram raros os momentos em que as pessoas pularam ou cantaram juntos. Mas não arredavam o pé das placas de plástico com o desenho de uma bola de futebol que cobria o gramado. Vaias tampouco; pura atenção, coisa que eu nunca vi acontecer no Brasil, principalmente em festivais. Ou o público pira com a simples presença do artista no palco ou está completamente desinteressado no que não conhece.

Sempre gostei de assistir a shows, principalmente de bandas desconhecidas. O Quilmes Rock realmente começou quando La Vela Puerca entrou no palco. Os uruguaios veteranos (existem desde 1995) têm pelo menos cinco hits que levantaram o público e mostraram ter muita experiência em grandes festivais. Cumpriram bem a missão de ser coadjuvantes na noite que estava com cartas marcadas a favor da atração local.

É difícil lembrar de todo o show da Bersuit. Foram mais de duas horas, com os maiores sucessos e algumas das canções do (fraco) novo disco. A preferência foi dada ao regular "Argentinidad Al Palo", mas houve boas surpresas dos discos mais inspirados como "Negra Murguera" (do excepcional Hijos Del Culo). Para nós brasileiros que não temos oportunidade de acompanhar de perto a carreira dos vizinhos portenhos, foi surpreendente constatar que a já enorme banda ficou ainda maior (pelo menos no palco). "El Tiempo No Para" foi a música que melhor utilizou os quatro guitarristas, dois percussionistas, sete vocalistas, baixo, bateria e guitarra. Um coral acompanhava a já tradicional interpretação emocionada de Gustavo Cordera, em que os argentinos pegam emprestadas as palavras de Cazuza para poderem reclamar da situação econômica-política-moral que todos nós vivíamos no começo dos anos 90.

Não foi raro ver um estádio inteiro pulando junto: "Se Viene", "El Viejo de Arriba", "La Argentinidad Al Palo, "El Baile de La Gambeta", "La Bolsa", "Porteño de Ley". Era mais do que comoção - como aconteceu no show do Pearl Jam em São Paulo, era uma verdadeira troca entre o público e a banda. Ao mesmo tempo relaxados e empenhados, os bersuiteros dos dois lados do palco eram na verdade uma multidão só.

Ao sair do palco antes do bis, Cordera exigiu um "piquete" para trazer a Bersuit de volta ao palco. Novamente os gritos de guerra, típicos dos estádios argentinos foram entoados sem parar, assim como "Señor Cobranza" (hino anti Menem, Cavallo e De La Rúa). Depois de alguns minutos os portenhos voltaram ao palco, claro, e terminaram a festa no Monumental.

Ainda bem que a Argentina não é tão longe assim.