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11 fevereiro, 2008

Porque não ver Bob Dylan


:: Diogo BarbaRuiva

É uma "heresia" dizer isso, mas consigo pensar em ótimos motivos para não ir aos shows de Bob Dylan no Brasil. Não estou negando todo o senso comum sobre ele, tampouco o meu gosto por sua música, mas geralmente shows como esse desencadeiam uma certa histeria de ocasião que não é muito agradável. Claro que eu gostaria de ver Bob Dylan, mas deu preguiça. E pelos seguintes motivos:

1. O ingresso custa 250 reais.
2. O ingresso de 250 reais acabou. No mínimo, um ingresso custa R$ 400 agora.
3. Vai estar cheio de gente que não sabe o que está fazendo lá. Aposto que um monte desses ingressos foi para os patrocinadores do evento. E aposto que vai ter um monte de celebridade saindo em foto para a Caras.
4. É um inferno parar o carro em qualquer casa de show. Ainda mais naquele buraco viário onde está o Via Funchal.
5. A cerveja pilsen de má qualidade custa o mesmo que um pint de cerveja irlandesa em um pub.
6. Andam falando demais sobre o Bob Dylan desde que ele lançou Modern Times. Que nem é dos seus melhores discos, apesar do que todo mundo disse.

Claro que muito disso é inveja, mas não ignoremos o que há de verdadeiro na minha crítica. Nós acabamos fazendo muito alarde quando algum grande ídolo internacional vem para cá. Todos os veículos de mídia falam sobre ele, aparecem especiais, reportagens no Fantástico, no TV Fama. É quase um favor que esses músicos fazem ao virem tocar aqui. Dessa vez em não vou passar o mês no perrengue.

06 fevereiro, 2008

Preste Atenção - Oppenheimer

:: Diogo BarbaRuiva


Nossa obsessão pelo The Black and White Years continua rendendo frutos. Depois de nos dar conta de que as bandas alternativas/independentes/desconhecidas estão mais próximas do que parecia, resolvemos criar uma seção semanal dedicada a compartilhar as descobertas. Horas de MySpace, Hype Machine, Last.fm, blogs de mp3, podcasts, serão agora compartilhadas com os nossos leitores-amigos.

Daremos preferência a bandas relativamente desconhecidas que tenham – de preferência, mas não exclusivamente – músicas gratuitas para download. Não faz sentido ficar resenhando discos de grandes gravadoras. Pensamos que pinçar as boas músicas disponíveis na rede é muito mais divertido e interessante. Porque se o hype traz à tona inúmeras bandas, há muita coisa que fica de fora, mas merece a atenção de quem gosta de música.

Nossa primeira tacada é uma banda da Irlanda do Norte, Oppenheimer. Essa dupla já tem um disco lançado e está gravando o segundo. O som é bem pop, com a presença forte de sintetizadores (eles são fascinados pelo moog) e vocais eletrônicos. No primeiro disco, auto-intulado, o fio condutor é dado pelas melodias. Com um pé no electro e outro no indie-rock, os norte-irlandeses fazem muita reverência aos anos 80. Sem muita pretensão, o primeiro disco do Oppenheimer mostra caminhos divertidos para o rock-pop que já foram trilhados por artistas como LCD Soundsystem e Fischerspooner.

Ao que parece, os dias de obscuridade do Oppenheimer parecem estar fadados ao fim, já que a faixa “This Is Not a Test” fez parte da trilha sonora do seriado-novela americano Ugly Betty, versão da novela colombiana Betty, a Feia, exibida no Brasil pelo SBT.

Ouça a catártica “Saturday Looks Bad”, a melhor do álbum de estréia da banda:



Aqui você pode baixar a participação deles no programa Lounge Act, da rádio WOXY.com.

MySpace da banda


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24 junho, 2007

Ensaio confuso sobre música eletrônica

:: Diogo BarbaRuiva


“Música eletrônica? Não, não costumo ouvir. Não tenho paciência.” É assim que os meus papos sobre o que ando ouvindo estão começando ultimamente. Batidas quadradonas não fazem o gosto da maioria dos amantes de música. Confesso meu preconceito contra esse estilo até bem pouco atrás. Percebi, porém, que há muito o que ser dito pela música eletrônica. É só ter saco.

Sem forçar a barra na analogia: o esforço de começar a apreciar as progressões dos DJs e produtores é parecido com o de ouvir a primeira sinfonia de nossas vidas. Fazer com que nos acostumemos ao formato de ambos os “ofícios” não é um trabalho passivo. Repetidas audições se fazem necessárias; pensar em parâmetros diferentes é o ponto crucial para entrar nesses universos um tanto descontínuos. O pop fez mal à nossa paciência.

De seis meses para cá, desenvolvi tal “saco”. É difícil de lembrar quando foi que tomei a decisão de sentar e esperar a música eletrônica acontecer para mim. Comecei pelo óbvio (o que estava ao meu alcance): psy-trance. Alguns amigos e amigas meus gostam de freqüentar raves. Fiz força e busquei no Myspace os nomes das duplas/DJs?produtores.
Achei meio chato. Não gosto de música de etê.

Adotando uma estratégia de eliminação, fui descendo o facão pelos estilos (aliás, inúmeros, impossível se ater a nomes). Hardcore techno, techno, house, beach house, digital hardcore, speedcore, terrorcore, breakcore, breakbeat, jungle, drum’n’bass, trance, psy-trance, acid-techno, acid trance, industrial, dark drum’n’bass. Escolher esse caminho é confuso. Apelei à Last.fm e me dei relativamente bem nas buscas.

Lembrei que gostava de Alec Empire e de seu disco ultra-pesado e quebrado, The Destroyer. A partir dele, achei mais nomes interessantes. Konflict, Messiah, Sub Focus, Hypnoskull, Pendulum. Pelos nomes posso dizer que cheguei a dois estilos que me agradam: harcore techno e drum’n’bass. Não o d’n’b do DJ Marky e do Mau Mau, mas um bem mais pesado, com cara de periferia londrina.

O interessante do d’n’b é sua versatilidade. Já encontrei diversos tipos de elementos em faixas desse estilo. Tem “Roda Viva”, do Chico Buarque, com a inconfundível batida quebrada, reggae, dub, rap, rock, heavy metal, industrial, até mesmo psicodélia. O importante é a batida ressonando no peito. Mais do que em outros estilos, eu diria. Há um quê de primitividade, uma tentativa de simplesmente fazer um barulho empolgante. Não há preocupação excessiva com a produção. Uma linha melódica simples é mais do que suficiente para dar alguma emoção à batida.

É o baixo quem dita as regras. Mesmo que se argumente a favor da batida, há sempre que se pensar no fato de que ela é muito parecida em quase todos os casos. Poucos produtores sabem faze-la suingar. Por isso precisamos do baixo. Ele faz quebrar o que a batida ainda não quebrou, e amarra a simplicidade do ritmo a uma linha melódica que muitas vezes não tem mais do que duas notas.

Londres, sempre Londres. Bem, talvez não só Londres, mas o Reino Unido é o lugar do mundo que mais sabe fazer música e lidar com ela. Tudo o que realmente importa no pop saiu de lá, seja direta ou indiretamente. O d’n’b não é exceção a essa regra.

19 junho, 2007

Aventuras de um DJ

:: Diogo BarbaRuiva

No próximo sábado, dia 23, estarei no DJ Club (Alameda Franca, 241) participando do famoso "DJ por um dia" do Projeto Sound.
Sei que leitores do blog já estiveram onde estarei a partir das 23h30, portanto conclamo os que confiam no bom gosto de um dos membros deste blog a comparecerem ao DJ Club.

Garanto pelo menos a diversão.

Para os próximos dias, um ensaio sem pé nem cabeça sobre música eletrônica e talvez considerações a respeito de música country americana dos anos 70.





11 junho, 2007

A volta!

:: Diogo BarbaRuiva

Depois de alguns meses um tanto confusos e atarefados, vamos voltar à ação. Sei que foi sacanagem deixar vocês todos (pelo menos os 23 que atualmente fazem parte da comunidade) sem muitas explicações.

Também não vamos dar desculpas: voltamos e pronto.

Porém, acho que para o bem de todos, o negócio é deixar o blog um pouco mais abrangente, algo que já fazíamos. Quem gosta de música gosta de música, não só de rock. Claro que o carinho maior é sempre por umas guitarrinhas, mas os lançamentos dos últimos meses não me deixam mentir que a coisa está bem fraca.

Passamos a nos denominar "Música na Peneira".

01 maio, 2007

Conflitos internos [Nine Inch Nails - Year Zero]


:: Diogo BarbaRuiva

Devido a problemas técnicos do Blogger estivemos ausentes durante esse tempo todo. Já está tudo resolvido, estamos de volta.


Year Zero, novo disco do Nine Inch Nails, é uma distopia, uma história de ficção sobre um futuro não tão distante que prevê grandes catástrofes sócio-políticas em um mundo dominado pela tecnologia e pelo autoritarismo. O disco temático segue a linha dos clássicos 1984 (George Orwell), Fahrenheit 451 (Ray Bradbury) e Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley); a história se passa num Estados Unidos tomado por um regime totalitário que controla o povo por meio de drogas. A perspectiva da narração varia, mas a complexa história toma como ponto de partida um grupo guerrilheiro que tenta derrubar o governo. Discos temáticos não são novidade; nesse caso, o que é diferente é o grau de interatividade que a história tem: uma empresa que desenvolve jogos foi responsável por criar inúmeros (realmente não se sabe quantos são) sites com informações que complementam a história contada nas faixas. Jogos como Silent Hill e Resident Evil são parâmetros do nível de garimpo que alguém tem que desenvolver para chegar a toda essa informação; sempre há alguma coisa que não vimos.

O disco em si, fisicamente falando, também chama atenção. Ele é branco, e quando colocado no aparelho de CD muda sua cor para preto. É termo-sensível, e volta à coloração original. Não se sabe se chegará ao Brasil com tais propriedades.

Detalhes demais para um disco de rock, eu diria. O clima é sempre uma coisa importante quando se ouve música, saber contextos, fatos que envolveram as gravações, detalhes da vida do artista, esse tipo de informação “inútil” dá colorido aos álbuns e os torna mais interessantes. Trent Reznor teve uma boa idéia e resolveu fazer isso através da ficção e de recursos visuais (os tais sites). Pode-se ignorar toda essa parafernália e simplesmente ouvir Year Zero com que ele tem, mas há a opção de recorrer às “muletas” contextuais disponíveis. Vejo um problema, porém. Nenhuma das duas experiências se sustenta bem sozinha e intercala-las é trabalhoso demais.

A ficção de Reznor é fraca e não traz nada de original. Além dos livros citados acima, seria possível pensar em inúmeros filmes e histórias que fazem diagnósticos parecidos. Um ponto possivelmente positivo, a crítica à guerra ao terror e a George W. Bush, já não é mais novidade. Hoje é moda tomar essa posição falsamente política porque não se corre mais riscos em faze-lo. A guerra do Iraque e Bush já estão desmoralizados, é consenso de que tudo foi um grande erro. Ter a coragem das Dixie Chicks – que em 2003, no auge da popularidade de Bush criticaram o presidente americano publicamente e foram massacradas pela mídia – seria algo fora do comum. Qualquer um fala da política externa norte-americana atualmente. A sensibilidade de apontar o não-óbvio e o não dito é que é extraordinária.

Sobrou a música, as dezesseis faixas de Year Zero. Ao contrário do ótimo With Teeth (2005), Year Zero perde força a partir do começo. Até “Capital G”, apesar de não ser muito empolgante, o disco mostra coesão e compõe bem o clima de ficção futurista que pretende ter. Mantém-se a estrutura de With Teeth no que diz respeito às canções: batida forte, guitarra pesada e refrão pop vigoroso. Depois disso acontecem coisas estranhas com Trent Reznor. “God Given” tem versos que facilmente poderiam ser cantados por Shakira, Bono e Justin Timberlake. A batida é suingada demais, apesar do peso do baixo e da afetação de Reznor. Ficou esquisito. Mais tarde, o líder do Nine Inch Nails parece querer retomar sua “vocação industrial” e fazer experimentações com as batidas. Ele cai na chatice de esquecer da melodia e também não deixa os efeitos eletrônicos tomarem rumo próprio. Fica com medo de ficar industrial demais e, ao mesmo tempo, fica com medo de ser pop. O meio-termo aparece, felizmente, em “The Great Destroyer”, uma das melhores faixas. Há o peso, o clima eletrônico que anda de mãos dadas com o pop quase meloso que a voz rasgada de Reznor sabe fazer. Quando a melodia se resolve e não tem mais nada a apresentar, o eletrônico toma conta e faz um solo de batidas interessantes e efeitos envolventes. Reznor é realmente um grande músico.

O pecado foi, portanto, uma dupla identidade que não deixou que nenhum dos dois lados tomasse o controle a fim de construir uma identidade mais sólida para o álbum. A ficção não deixou o disco ser somente um disco, o disco não supriu a necessidade de climas de que a história necessitava. O pop não permitiu ao eletrônico maior liberdade de ser agresivo. A obrigação de ser industrial, pesado e sombrio deixou o pop enfaixado em meio a batidas e loops desnecessários.

Apesar de não ser um disco de todo ruim, Year Zero é fraco frente a obra do Nine Inch Nails e de outros artistas que têm as mesmas pretensões. Por exemplo, Marylin Manson. Esse é um que sabe exatamente o quanto do pop ele pode usar sem perder seu caráter provocativo e sujo. Um dos melhores covers dos últimos tempos é sua versão de “Sweet Dreams”, do Eurythimcs. Em Mechanical Animals, Manson incorporou o pop e propositalmente comprometeu o peso de sua banda. A imagem da capa é sugestiva: ele com corpo de mulher, seios e tudo. Antes, com um som pesado e agressivo, ele se autoproclamava o anti-cristo do pop. Virou uma virgem Maria do peso, talvez.

Reznor quer ser Cristo e Maria, quer ter tudo sem abrir mão de nada. Não acredito que tenha optado por ser assim em Year Zero por desconhecimento de causa: em With Teeth fica clara sua opção pelo rock frente ao eletrônico. Essa é uma questão muito bem resolvida. Dave Grohl foi escalado para tocar bateria ao invés dos drum-machines usuais. Em Year Zero, apesar da sugestão de um recomeço, o Nine Inch Nails cai no senso comum e não se mostra extraordinário como de fato é. A capacidade de fazer canções foi seriamente comprometida por tantas variáveis envolvidas no processo. Faltou mais simplicidade.
Trent, não precisa tentar começar do zero.



21 abril, 2007

Estão tirando uma com a nossa cara

:: Diogo BarbaRuiva


Procurando saber se já havia algum rumor relativo ao Claro Q É Rock de 2007, dei um Google para ver se achava alguma coisa. No blog 4º Piso tem um falso lineup que seria de tirar o fôlego. O festival seria realizado em Poços de Caldas, segundo o boato.

Digamos que faltou humildade ao mentiroso:

Claro Q É Post Rock, sexta-feira (06/07) [7 bandas]
20:00 - Vanguart (MT)
21:00 - Gram (SP)
22:00 - Patife Band (SP)
23:00 - Nação Zumbi (PE)
00:00 - Los Hermanos (RJ)
1:00 - Mutantes (SP)
2:00 - Radiohead (UK)

Claro Q É New Rock, sábado (07/07) [11 bandas]
16:00 - Hats (SP)
17:00 - Ludovic (SP)
18:00 - Walverdes (RS)
19:00 - Rock Rocket (SP)
20:00 - Zefirina Bomba (PB)
21:00 - Cachorro Grande (RS)
22:00 - Moptop (RJ)
23:00 - Autoramas (RJ)
00:00 - Gossip (UK)
1:00 - Artic Monkeys (UK)
2:00 - Bloc Party (UK)

Claro Q É New Rave, domingo (08/07) [9 bandas]
18:00 – Freak Plasma (SP)
19:00 - Multiplex (SP)
20:00 - Digitaria (MG)
21:00 - Montage (CE)
22:00 - Jumbo Elektro (SP)
23:00 - Bonde do Rolê (PR)
00:00 - CSS (SP)
1:00 - Klaxons (UK)
2:00 - Le Tigre (US)

Claro Q É Hard Rock, segunda-feira (09/07) [5 bandas]
15:00 - Pilotus (SP)
16:00 - MQN (GO)
17:00 - Forgotten Boys (SP)
18:00 - Wolfmother (AUS)
19:00 - Queens Of The Stone Age (USA)

Teríamos nosso próprio Coachella, ou Reading.
O porém que confirma a mentira (e acalma os mais crédulos) é o fato de a banda Le Tigre já ter acabado há alguns meses.

Brincadeira sem graça.



20 abril, 2007

Curtas [Para bater a cabeça na parede]

:: Diogo BarbaRuiva


Dois discos pra bater a cabeça na parede: The Destroyer, de Alec Empire (veja o texto publicado sobre ele aqui) e The Downward Spiral, do Nine Inch Nails. O primeiro é desconhecido até mesmo dentro da discografia de Empire. Ele mostra sua vocação para DJ (atividade que é sua principal hoje em dia) num cd sem melodia alguma. Se já era difícil identificar notas e acordes punk no Atari Teenage Riot, aqui é pior. A intenção é ser o mais violento possível, quebrar as batidas ao extremo, usar gritos, barulhos estranhos e o que mais estiver ao alcance das pick-ups e CDJs. Música de quem vive em grandes cidades. Experimente ficar preso na Marginal Pinheiros às 18h ao lado de caminhões e motos. As coisas se fundem num som só, que sai tanto dos seus altos falantes quanto do ambiente ao seu redor. Os tons de The Destroyer são os mesmo dos barulhos metálicos e mecânicos da cidade, por isso a fusão tão fácil. Por um instante é possível esquecer que o som está ligado. São Paulo parece embalar o começo de sua noite. Fica mais fácil (ou enlouquecedor) encarar o trânsito assim.

O Nine Inch Nails já teve o Atari Teenage Riot como banda de abertura e é um dos pioneiros no eletrônico industrial misturado com rock. Apesar de muito menos agressivo e incisivo (e de não ser político), Trent Rezor é relevante não só nesse segmento com também no rock em geral. The Downward Spiral é o momento mais inspirado dele, em que deixou o caminho aberto para Marylin Manson, Rob Zombie, Linkin Park e outros mais. A produção é mais elaborada, mais clara (em oposição à densidade de Empire e Atari Teenage Riot) e mais voltada para a obscuridade de sentimentos: desejos sexuais violentos, mutilação, auto-flagelo, violência raivosa . Reznor é também um excelente produtor: é parceiro de Marylin Manson há anos e soube não impor seu som ao pupilo, apesar da evidente influência. Outro ponto positivo do NIN é sua parcimônia em lançar discos. Reznor já foi chamado de gênio algumas vezes pela imprensa musical mas não se deixou impressionar. Sua discografia não é extensa e em muitas ocasiões foram lançados compactos e singles ao invés de álbuns inteiros. Destes últimos são quatro, desde 1989, uma ótima média. O penúltimo álbum, With Teeth (2005), confirmou a relevância do NIN, apesar de ser mais voltado para o rock e menos industrial.

13 abril, 2007

We want more [The Living End, uma banda legalzinha]


:: Diogo BarbaRuiva

Este texto poderia ser um da seção “É ruim, mas é bom”, se levarmos em conta o tipo de som que o The Living End faz. Como já constatamos por aqui, porém, o pop não é necessariamente ruim; tem gente que procura um mínimo de “transcendência” mesmo fazendo música comercial. Madonna, George Michael e o finado bom cantor pop Michael Jackson (não, ele não morreu, mas o bom cantor que ele era, sim). Gostar de algo fácil e divertido é uma parte importante das nossas vidas. De uma certa maneira, é um aprendizado.


Fui apresentado aos punks australianos em 2000, quando eles estouraram nos EUA (quando eu morava lá) com o disco Roll On. A faixa de mesmo nome fez parte até da trilha sonora do Super Bowl – a final do campeonato de futebol americano, que tem o minuto de publicidade na TV mais caro do mundo. Na época eles não me pareciam nada mais do que aspirantes a Green Day. A execução no rádio era tão exaustiva como as de Nelly, Jenniffer Lopez e Limp Bizkit (monstros do pop naquele ano). Não havia a menor chance de eu comprar aquele CD. Lynyrd Skynyrd me parecia algo muito mais interessante naquela altura.

Na única loja de CDs decente da cidade em que eu morava (que já foi mencionada aqui, no texto sobre Kid A, do Radiohead) eu acabei escutando Roll On por acidente. O vendedor era meu amigo e a única pessoa que não achava meu gosto musical estranho – vejam bem, os hits no Alabama eram quase todos gospel. Ele pôs no som da loja (pulando a faixa mais famosa) e eu acabei ficando curioso. Era bem pop, mas tinha uma levada rockabilly. Depois ficou um pouco sombrio e melancólico, mas sempre punk. Em uma dada faixa, a introdução era um reggae rasgado, com a bateria suingada e uma guitarra entre Sublime e Reverend Horton Heat. Não resisti e perguntei para ele o que diabos era aquilo. Como de costume, ele não falava de volta, simplesmente voltava com o disco na mão porque sabia que assim aumentavam suas chances de arrancar mais 13 dólares de mim. O maldito conseguiu mais uma vez. Levei Roll On para casa.


Em poucos dias de audição despreocupada (porque com músca pop não é necessário muito esforço), o The Living End já tinha feito estragos em mim. O disco é muito bem-feito. Mais do que punk de rádio e de butique, o som deles é um “punk sinfônico”, cheio de transições e mudanças de tom, de paradas, de leves toques de naipe de metal, ska, reggae e hard-rock. O rockabilly é uma das referências principais no som. Eles usam um baixo acústico mesmo nas músicas mais pesadas; no disco há um agradecimento ao já citado Reverend Horton Heat, um dos maiores nomes do psychobilly.


Quando voltei para o Brasil, percebi que os australianos haviam passado em branco aqui. Depois de alguns meses, acabei me esquecendo deles (como é comum acontecer com discos pop). Meus garimpos continuaram sem ter muito a dizer sobre o The Living End. Até semana passada. Em um daqueles momentos em que nada satisfaz os ouvidos, comecei a buscar um rock mais pop, para ficar longe dessa coisa indie. Topei com uma supresa, State of Emergency, disco do ano passado dos punks sinfônicos. Impressionei-me novamente com a competência em fazer canções precisas e repletas de energia. Rockabilly de novo, batidas fortes de novo, o ska de novo. Muito parecido com Roll On. Outra vez, experimentações diversas. Não fosse por duas canções em particular, o disco seria classificado na seção “descartáveis pelos quais tenho carinho” da minha sobrecarregada memória musical.


“No Way Out” cita Radiohead. Você diz: “e daí?”. The Living End era o sucessor do Green Day! Os americanos tentaram entrar no rock alternativo e se deram mal. Entenda que a faixa não é só uma tentaiva de fazer sucesso em outras searas, ela tem vida própria, faz sentido no conjunto da obra da banda. Depois do momento “Street Spirit (Fade Out)” entra uma progressão punk melódica típica do trio australiano. Depois de quatro discos, uma banda que parecia descartável ganha relevância sem comprometer sua identidade pop e sem assustar a fan-base.


“Nothing Lasts Forever” vai além da anterior. Tudo o que eu disse sobre o contexto em relação à “obra” da banda vale aqui. Não sei o que pode ter feito sair o som que eles tiram na sétima faixa de State of Emergency, se o produtor ou os quase dez anos de carreira, mas é impressionante. As guitarras são fantásticas, uma mantendo a base simples o tempo todo (evocando o punk); a outra faz fraseados cheios de eco, passando uma idéia de espaço e de movimento . A harmonia vocal é muito bem-colocada e tão importante quanto as guitarras.

Ouvir as duas faixas isoladamente pode passar a impressão errada de uma banda indie, emo até. Se não vale a pena baixar, ouvir e sentir o clima dos dois álbuns completos (apesar do pouco esforço que isso implica), pelo menos tenhamos em conta tudo o que está por trás do som. O fim do formato àlbum em detrimento das faixas talvez tenha como consequência o fim do idéia de contexto também, o que é uma pena.


O que motivou essa reflexão e o texto foi justamente o contexto, o caminho trilhado, as músicas que foram gravadas e como elas foram gravadas, foi ver uma banda ser sinceramente pop e explorar suas limitações de maneira a ter identidade. Sim, essa é uma obsessão minha em relação ao rock, ouvir algo que seja fruto honesto de experiências e influências, não uma imitação do que se considera ideal (ou bom). Nunca me esqueço da qualidade, entretanto. O The Living End é só mais uma bandinha legal, que não durará para sempre.
  • Breaking all the rules/Fooling all the fools/Like you got nothing to loose/And we want more”. (Quebrando todas as regras/Enganando a todos os tolos/Como se não tivéssemos nada a perder/E queremos mais) - “Nothing to Lose”, do disco State of Emergency.

The Living End:
Site Oficial
MySpace

11 abril, 2007

Ao menos um show bom!

:: Diogo BarbaRuiva

Entrei em contato com o pessoal do site do New Model Army e recebi uma ótima notícia por e-mail: não é boato, eles já têm duas datas em São Paulo para agosto e estão tentando agendar mais. Não deram detalhes de onde e nem dos dias, mas agora é oficial. Vou tentar descobrir mais ainda hoje e posto assim que tiver novidades.

Ao menos um show bom?


:: Diogo BarbaRuiva

Não somos muito de dar notícias sobre rumores de shows, discos ou boatos quaisquer, mas esse vale a pena: a banda inglesa New Model Army, que surgiu nos anos 80, talvez venha para o Brasil no segundo semestre de 2007. O mais interessante é que o rumor está sendo disseminado por eles mesmos através de seu site. Lê-se "Brazil looks like august (O Brasil está mais para agosto)".

Para quem acha que não conhece, baixe a faixa "51st State". É o único hit deles e é uma música bem conhecida aqui. Mas não se limite a isso. Baixe logo todo o álbum da canção em questão, The Ghost of Cain. São fascinantes as linhas de baixo e as levadas de bateria do NMA. Uma bela cozinha de uma bela banda pós-punk/pré-grunge.

Essa notícia é uma ponta de esperança em um ano meio vazio até de boatos interessantes no rock. Os shows do primeiro semestre estão de matar (em questão de bandas e preços).

Site Oficial
Myspace

08 abril, 2007

O óbvio do sexo


:: Diogo BarbaRuiva

Dando continuidade ao tema (não proposital) “sexo no cinema”, um outro filme sobre sexo (drogas) e rock’n’roll merece menção aqui. É 9 Canções, do roqueiro Michael Winterbottom (A Festa Nunca Termina, O Caminho para Guantánamo).

As tais nove canções são algo, digamos, concreto. A história é permeada e contada por Black Rebel Motorcycle Club, The Von Bondies, Elbow, Primal Scream, The Dandy Warhols, Super Furry Animals, Franz Ferdinand e Michael Nyman; cada canção é parte do filme. Dizer trilha sonora é um engano: o filme todo pára quando a canção entra em cena. E isso é literal, porque o que aparece é uma espécie de bootleg em vídeo de cada faixa. Muito mais importante do que um simples pano do fundo.

O resto do filme também foge do convencional. O que se conta é a história de um casal de namorados. Não é um romance fácil, um caso de amor cativante embalado por ótima música. Winterbottom foi sensível ao mostrar o dia-a-dia repetitivo que existe além do furor de um amor fresco. Sim, as cenas de sexo são fortes. São gráficas, ou seja, nada é disfarçado. Para quem for um pouco menos sutil, é um filme pornô. Não é para qualquer um encarar esse sexo explícito. É um sexo humano, é isso o que mais incomoda. Assim como o resto do filme, tudo parece ter sido filmado com uma velha câmera de fita, como se fizesse parte das memórias de alguém. Difícil lidar com tanta intimidade, ainda mais quando ela nos lembra da nossa própria.

Não há música quando há sexo. Ouve-se cada ruído e estalo de beijo, cada busca de ar. A música pára tudo, ela situa o espectador. Os personagens principais resumem-se a viver seu relacionamento, a transar, comer, dormir, ouvir música, dançar e ir a shows, sem grandes momentos de reflexão guiados por diálogos complexos. É uma vida bastante parecida com a minha. Os shows na famosa Brixton Academy lembram ao espectador que ele está vendo um filme. A fantasia é duramente cutucada pela realidade, pelas bandas fazendo o papel delas mesmas.

Tudo é cru em 9 Canções. A “pornografia” não é uma tentativa de chocar, de fazer com que nos sintamos enojados. A música não quer nos tranportar para um lugar superior em nossas consciências, numa espécie de ascenção moral – uma especialidade dos filmes de Hollywood. Mesmo o roteiro não passa grandes mensagens. Michael Winterbottom soube me fazer sentir como se aquilo tudo (o relacionamento) dissesse respeito a mim também, tenha eu passado por algo semelhante ou não. Foi um raro olhar do lado de dentro da intimidade. Não vejo essa abordagem cheia de “calor humano” em nenhum outro filme dos últimos tempos.

Terminando com o que nos diz respeito propriamente, o rock, difícil dizer um filme que tenha dado semelhante importância à música. Assim como todo o resto, a música é parte da intimidade do casal. Conhecemos a maioria das bandas e das músicas, mas vemos como as perspectivas diferentes transformam coisas que julgamos conhecer. Um ponto de vista distinto torna uma velha canção em algo que desconhecemos completamente, as palavras não são as mesmas para nós e para um casal de namorados apaixonados. O óbvio do que eu disse foi muito bem colocado em 9 Canções. O evidente está exposto, não dito ou escrito, de uma maneira fantasiosa, vivido por e para nós.

04 abril, 2007

Brinquedinho novo


:: Diogo BarbaRuiva

Como se já não bastassem o Pandora, a WOXY e o Last.fm - se bem que esse último está bem fraco ultimamente - o Múcio, nosso leitor e membro da comunidade no orkut, deu mais uma dica de rádio via internet. A Radio Indie Pop tem seis canais que mudam conforme a semana e o dia da semana. Interessantes são os canais "álbum do mês", com um disco novo na íntegra e "Ramones radio", com todos os álbuns de estúdio mais algumas coisas ao vivo da maior banda punk americana de todos os tempos.

Lá se vão as meia-horas nas quais você deveria estudar para aquela prova difícil, que foi marcada para depois da Páscoa.

Clique AQUI para entrar na Radio Indie Pop.

26 março, 2007

Buraco negro da música



:: Diogo BarbaRuiva

Começarei meu texto enumerando os erros que cometi durante o relato que se seguirá. Maiores explicações virão junto com a narrativa cronológica dos eventos. Primeiro erro: pensei demais em mim, e não nos outros. Achei que sozinho eu conseguiria me conectar com todos os que encontrei, fossem amigos, conhecidos ou outros. Em nenhum minuto parei para considerar se o que eu gosto tem alguma relação com o resto do mundo. Formalismo reducionista de uma igualdade abstrata. Viajei na maionese.

Segundo, mesmo percebendo o fracasso iminente não dei o braço a torcer. Tudo apontava para o desfecho que veio de fato, mas eu segui em frente sem interpretar o ambiente. Fiquei sozinho o tempo todo. Pois claro, eu estava satisfeito comigo mesmo. Eu não estava ali para mais ninguém. Pirei na batatinha.

Por fim (quanto aos erros), uma coisa que eu deveria ter feito no começo da lista e no começo cronológico da história: respeitar os outros, ou, como na antropologia, exercitar minha alteridade. Esse foi o principal dos erros, ele deixou que toda a cadeia que se desdobrou existisse.Falando claramente: neste último fim-de-semana fui convidado a discotecar em uma festa. Um amigo meu, ouvindo meus CDs de Ronnie Von e Erasmo Carlos (e confiando no meu vacilante bom-senso), achou que seria uma boa idéia que eu inaugurasse a noite de mais uma festa de arromba em sua república, coitado! Fiquei muito entusiasmado e aceitei na hora, apesar de não ter experiência alguma no ofício de ser DJ. Seria minha primeira vez. Fui formando um projeto mental da set list, que não por coincidência era muito parecida com os assuntos deste blog. Meu cerébro, mesmo sem aditivos externos, foi pra lá de Marrakesh.

Seria a oportunidade perfeita para tocar aquelas coisas que eu sempre quis ouvir mas nunca ninguém tinha coragem de pôr em uma festa. Ridículo, mas meu ego fez com que um espírito pioneiro sem-vergonha tomasse meu corpo e as fantasias do que seria aquela noite. Fiz a famosa punhetagem mental e musical. Agora entendo o conselho que recebi de um DJ: "Engula seu orgulho se quiser tocar". Que nada, eu fiz um estardarte com a foto do meu orgulho estampado e fiquei carregando-o pela festa o tempo todo.

Demorei dois dias para alinhar uma sequência ideal; gravei os CDs na ordem em que eu queria tocar as músicas. Não havia flexiblidade alguma. Aliás, esses foram os dois únicos discos que eu levei. Na hora de passar o som tive que me contentar com reggae e free jazz. Foi assim que aprendi a “mixar”. Eu não tinha a menor idéia do que viria. Minha crença era a de que as músicas segurariam a pista porque eram muito boas e inéditas. Achei realmente que isso importava.

O bombardeio foi de basicamente dois cantores: Erasmo e Ronnie Von. Tinha o Rei Roberto, Beatles, Los Hermanos, John Lennon e até coisas mais famosas no final. O problema foi que a abordagem que eu escolhi foi ortodoxa demais; não concedi nada ao “público”, não dei chance de as pessoas se empolgarem com o que já conhecem. Como disse um amigo, eu fui o DJ "empata-foda". O cara que estava conversando com a menininha não teve como respirar nem chamar ela pra pista. Teve que se aguentar durante uma hora e meia só no papo. Nem cantar junto o coitado podia. Ferrei com a vida do sujeito. Enquanto isso, eu estava lá, sozinho. Um amigo ou outro passava e dava um oi ou trazia uma cerveja até a mesa, mas nem eles tiveram paciência para a minha exibição. E é isso que foi: uma exibição de um cara qualquer, desconhecido, que tocou músicas ainda mais desconhecidas para uma imensa maioria de estranhos, desconhecidos. E eu ficava me perguntando quando a festa iria encher, sem saber que as pessoas estavam se amontoando lá fora, com medo da pista.

No fim das contas ninguém sequer comentou aquela grande viagem. A repercussão foi zero. E eu achava que ia abafar. Quando toquei Strokes, bem no final, a já vazia sala virou um campo de vácuo; acho que até o ar saiu de lá naquela hora. Voltemos aos dois primeiros parágrafos do texto. Erros e mais erros, alteridade em falta. Acho que aprendi uma lição. Música, como tudo, não tem valor intrínseco. Não adianta achar que algo é fenomenal só porque existe. A existência de tudo depende do que as pessoas pensam daquilo. O importante é tentar estabelecer critérios sérios para dar valor a algo, mas mesmo assim eles serão questionáveis.

Já estou repensando a minha lista. Fazer concessões, ainda aprendo, deve ser o segredo do sucesso social. Tenho uma bom número de hits esperando a próxima vez em que alguém com coragem vai me convidar para brincar de ser DJ. Vou tocar até Madonna.

24 março, 2007

Irish Blood, American Heart [ou Sobre como os Strokes conseguem ficar ainda melhores]


:: Diogo BarbaRuiva

Reclamei tanto que achei alguma coisa. Eu ia inventar uma história interessante sobre como esse CD do qual vou falar estava esquecido no meu carro, e de como naquele trânsito absurdo da sexta-feira passada tive um mágico reencontro com ele, e assim iria...Que estava esquecido é verdade. Já fazia uns três meses desde sua chegada às minhas mãos. Ouvi uma vez e não gostei, achei maçante. Ficou encostado.

O garimpo é imprevisível: não adianta só fuçar o resto do mundo, é preciso fuçar olhando para nós mesmos. Nosso ouvido se engana. Ou quem sabe muda no decorrer de três meses. Tanta coisa toma rumos diferentes de maneira rápida na vida, não vejo porque com o gostar de música seria diferente. Descobri mais uma daquelas bandas que dão esperanças. Director, irlandês e herdeiro do legado dos Strokes, é o grupo em questão.

Vou retomar aquele antigo raciocínio sobre os Strokes para aplica-lo ao Director. Vamos com calma. Primeiro, eles fazem referência mais do que explícita aos ídolos. São fãs declarados. A vantagem de soar como os nova-iorquinos é o tom de maturidade que isso confere aos novatos irlandeses. O instrumental dos Strokes é muito melhor produzido e pensado (vivido, por que não?) do que o dos nossos eternos “malhados” (em referência a Judas) Arctic Monkeys. Fruto, eu já disse, de anos de experiência, de noites ruins em clubes pequenos, de brincadeiras em horas de ensaios. Director mostra que não lançou disco por acaso, que teve tempo de chegar a um “som”. Coisa que os Monkeys não têm, desculpem-me.

Ser uma cópia dos Strokes seria um mérito. Mostraria quanto impacto Is This It? teve no rock do século XXI. O quinteto americano não é apenas uma banda passageira, cheia de pose e estilo, eu também já disse isso. Eles têm a boa música como seu maior trunfo, não a internet. Mas Director já é mais do que isso, e We Thrive On Big Cities (2006) é uma evidência bastante convincente. Conseguir mostrar de onde veio e a que veio, ao mesmo tempo, logo no primeiro disco, é coisa rara de se ver hoje. Não nos enganemos (eu me enganei, confesso), pelas guitarras evidentemente “strokeanas”, pontuadas e fortemente melódicas, há muito mais poeira debaixo desse tapete.

Michael Moloney (voz e guitarra) é o quem dá o toque de coisa nova ao Director. Não fosse sua interpretação dramática e anasalada (que lembra muito a de Morrissey na carreira solo mais recente), talvez esse texto não existisse. Quando você se pega tentando imaginar como Julian Casablancas cantaria as dez faixas de We Thrive on Big Cities, você entende que ele não conseguiria faze-lo. Isso é crucial no disco: a personalidade da banda. A tentativa foi a de dar uma versão pontual para os Strokes. É o que eu chamaria de uma síntese bem-feita. Pegaram as coisas que os influenciaram e transformaram em algo singular, produzido por eles mesmos.

O que quero dizer é que existe uma identidade forte nas faixas, não poderiam ser de outra banda. Melhores ou piores, sim, mas não de Arctic Monkeys ou Franz Ferdinand. Eu confundo as duas últimas bandas às vezes. A falta de energia é parecida demais. A partir do primeiro momento em que ouvi Director identifiquei suas peculiaridades. Era melódico demais para ser Strokes, direto ao ponto demais para ser Morrissey, trabalhado demais para ser um desses fenômenos novos.

Morrissey tem uma música chamada “Irish Blood, English Heart”, que acredito ser um bom paralelo para aplicar ao Director. O ex-líder do The Smiths é inglês e escreveu uma forte canção sobre a identidade nacional inglesa:

"I've been dreaming of a time when/To be English is not to be baneful/ To be standing by the flag not feeling/ Shameful, racist or partial "

(Eu sonho com um tempo em que/Ser inglês não será algo destrutivo/ Quando estivermos perto da bandeira não nos sentiremos/ Envergonhados, racistas ou tendenciosos)

Claro que o drama não é tão intenso assim, mas podemos pensar na forte identidade musical que Director carrega; que é tão forte que não deixou que a influência dos Strokes fosse mais marcante do que fazer música própria. E esse traço irlandês está marcado no sotaque de Moloney e nas grandes melodias que We Thrive on Big Cities tem (vide Thin Lizzy, Pogues e Therapy?).

Irish blood, English heart, this I'm made of (Sangue irlandês, coração inglês/é disso que sou feito). No caso do Director, sangue irlandês, coração americano. É, definitivamente, o primeiro caso que vejo de uma boa banda influenciada pelos Strokes. Entenderam bem o que quer dizer “sintetizar” as influências. Nada mal, levando-se em conta que os americanos ainda estão na ativa, e esta ainda não completou seis anos. Sou insistente: estamos diante de um fato importante no rock. Os Strokes ainda não terminaram seu trabalho na música, quer lancem discos bons de agora em diante ou não. Ouvir Director é uma evidência disso.

DIRECTOR no Myspace: clique aqui.

Website do DIRECTOR: clique aqui.

21 março, 2007

Saímos no Estadão

:: Diogo BarbaRuiva

Nessa última segunda-feira o caderno Link, do Estado de S.Paulo, fez uma matéria sobre o nosso velho conhecido Wolfgang’s Vault, aquele site com mais de 300 shows disponíveis. Parece que eles vão vender downloads dos shows em um futuro próximo, o que causou a revolta de alguns artistas, como o Grateful Dead.

Depois que nós demos a notícia sobre a existência do site aqui, os dois grandes jornais de São Paulo e alguns blogs grandes resolveram falar sobre ele também. Ou seja, eles foram “furados”. O mais legal disso é que nós fomos procurados pela reportagem do jornal para darmos nossa opinião sobre essa história. O nosso editor, José Rodrigo Rodriguez, falou em meu nome e no de Rodrigo Celso. Quem assina o jornal pode ver pela internet.


Começamos esse blog meio na brincadeira, só para nos divertir. Pois é, está ficando cada vez mais divertido.

19 março, 2007

Desabafo [de mãos vazias]

:: Diogo Barbaruiva

O garimpo (com gê minúsculo) anda meio devagar. Topei com muitas coisas nesses últimos dias, mas nada que merecesse uma resenha aqui. O Rodrigo Celso é que é um cara informado, cult. Tem sido mais feliz nos achados, fala de mercado crítico e de coisas filosóficas. Autêntico Greil Marcus brasileiro. Eu – sem querer ofender a ninguém – funciono mais como o Lester Bangs. Escrevo na base da empolgação, sem parar muito para pensar.

A situação atual não me favorece, portanto. Nenhum show internacional interessante. Nacional então... Apesar da maré ruim, vou postar um relato sobre uma banda que achei nas baladas indie da vida. Antes, vou fechar o ciclo do rock brasileiro dos anos 60 e 70, começado por Rodrigo Celso, e falarei de um dos roqueiros mais injustiçados que o nosso país já teve.

Continuando as reclamações: apesar da Last.fm, eu não tenho me empolgado com as coisas novas. Ouvi Cursive, Biffy Clyro, Noisettes, e nada me supreendeu. Dos velhos, dei um pouco mais de atenção ao The Mars Volta e lembrei porque não gosto de rock progressivo. Eu garimpo, garimpo, e nada. Cadê o Radiohead, aliás? Está mais do que na hora! Mais de três anos sem disco não dá.

Não temos nada por que esperar. Talvez discos de Strokes e She Wants Revenge. Com certeza, alguma coisa do Frank Black, provavelmente no segundo semestre. Todas as revistas, sem exceção, só falam das velharias. Outro mês a UNCUT fez uma reportagem especial em homenagem aos 10 anos do OK Computer. Legal, mas e o que mais? Neste mês os Smiths estão na capa. Chegaram ao ponto de fazer um artigo sobre o Metallica. James Hetfield diz: “Enter Sandman é a nossa Stairway to Heaven”.

Deve ser por tudo isso que eu ando me refugiando nas velharias: Soundgarden, Alice in Chains, até o próprio Metallica! Resgatei o disco solo do Chris Cornell outro dia.

Sou um homem moderno, com meus ouvidos embotados de estímulos, em busca de um prazer virtualmente inalcançável. O meu mouse é rápido demais para os meus ouvidos. Mas o rock de hoje está devagar demais para a minha paciência.

Desculpem-me pela honestidade, mas eu queria justificar a ausência. E vamos em frente.

07 março, 2007

Vergonha da Jovem Guarda


:: Diogo BarbaRuiva

Quando Ventura, dos Los Hermanos, saiu em 2003, a comparação de Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante à dupla Chico Buarque/Edu Lobo foi constantemente repetida por todos os veículos que falavam da banda carioca. A mistura bem-sucedida de rock indie com música brasileira despertou a fertilíssima imaginação dos jornalistas e causou esse grande equívoco. Lendo um texto de Rodrigo Celso e ouvindo a um disco de Erasmo Carlos, sou obrigado a discordar completamente da imprecisa comparação.

Em primeiro lugar: Chico nunca foi de misturar as coisas. Seu viés é e sempre foi o samba. Claro, ele compensa a falta de variedade na música com suas letras muito boas. Dizem que é poesia., inclusive. Aqui a comparação patina feio. Os Los Hermanos tentaram criar um som novo, sintetizar suas influências em algo supostamente novo. De fato foi novidade. Ainda é, principalmente se pensarmos na nova onda de resgate das “raízes” culturais brasileiras que assola o mundo universitário atualmente. Há uma falsa luta ideológica entre o que é de raiz e a música “imperializada”. Esse tema já foi abordado aqui em outro texto meu.

Então os Los Hermanos não se encaixam na turma da faculdade, eles fazem rock, pô! Eles são influenciados pelo rock estrangeiro. Uma amiga americana uma vez me disse, ao ouvir uma das faixas do Ventura : “Mas eles são os Strokes brasileiros!”. Ela está certa, em parte. Os Los Hermanos são mais do que uma cópia dos nova-iorquinos, mas ainda assim, altamente influenciados pelo som da Big Apple.

Tudo isso me lembra uma certa época da história da música brasileira, nos idos dos anos 60, quando um embate ideológico parecido ao mencionado acima aconteceu. Os pólos eram dois programas de televisão: O Fino da Bossa, comandado por Elis Regina e Jair Rodrigues e Jovem Guarda, de Roberto, Erasmo e Wanderléa. A situação era semelhante: um grupo fazia rock, o outro, música de “raiz” (ou baseada na tal raiz). Não vou entrar em detalhes de como isso se desenrolou.

O que é importante para mim é traçar as raízes dos Los Hermanos como sendo mais profundamente fixas na Jovem Guarda do que no Fino da Bossa. Quem já ouviu a banda sabe o porquê disso. Eles não são nada xiitas em relação a o que deve predominar em sua música. Eles são rock, ponto final. Ouviam Weezer e Chico, simples assim. Aqui entra a informação central de Rodrigo Celso: já houve quem fizesse isso anteriomente, há décadas atrás. O som feito era parecido com o que os Hermanos fazem hoje (excetuando-se o indeciso álbum 4, bem pior que Ventura). Erasmo Carlos! O parceiro de Roberto, o Tremendão, o cavaleiro do rock nacional (sem esquecer dos Mutantes, é obvio).

Marcelo Camelo canta muito parecido com Erasmo (ouça “Largo da Segunda-Feira”, do último). Os temas são parecidos, apesar do rebuscamento às vezes desnecessário que Chico emprestou a Camelo. Erasmo fez sambas também, fez samba-rock, usou naipes de metais viajantes, fez música psicodélica (“Horizonte Distante”?). Olha, se eu fosse jornalista naquela época, a dupla escolhida seria outra: Erasmo e Roberto Carlos. Para quem não sabe, a maioria das canções dos discos do Tremendão é em parceria com o Rei.

Los Hermanos não é MPB. Tem guitarra, tem bateria mal tocada à la Jovem Guarda, tem gritos de yeah!. Reconheço todo o bem que a complexidade harmônica da bossa nova fez às composições dos cariocas, dou o braço a torcer. O samba é fundamental para eles também, eu sei disso. Eu não arredo o pé de dizer que precisamos parar de ter vergonha da Jovem Guarda. Se aqueles jovens “alienados” não foram os responsáveis pelo surgimento do rock brasileiro, eles foram ao menos seus guardiões. E lá vão os Los Hermanos usando todo aquele arsenal no século XXI, sem dar os devidos créditos a quem merece.

27 fevereiro, 2007

O que vou ouvir logo antes de morrer

:: Diogo BarbaRuiva

Já pensei nisso vezes demais: o que eu gostaria de ouvir no momento da minha morte. Como eu não acho que vá ouvir Deus falando (e nem o diabo), que seja alguma coisa boa. Sempre corre-se o risco de ser pego de calças curtas pela Danada, em um momento "É ruim, mas é bom" . Imagine só morrer ouvindo Dishwalla, Pitty ou Rádio Taxi. Seria um tanto irônico.

Se eu soubesse de fato quando iria morrer eu faria como Homer Simpson, naquele episódio em que come peixe venenoso e tem sua sentença de morte decretada pelo Dr. Hibbert. Eu ia sair fazendo aquelas coisas para as quais eu nunca tive tempo mas sempre quis fazer. Andar de patins, comprar um Ipod, ler a Ilíada.

Tendo o tempo de me preparar, eu faria de tudo para me despedir em grande estilo (musical). Teria de ser algo que dissesse tudo sobre mim e sobre minha morte, que deixasse os meus amigos e parentes emocionados, que tornasse a minha ida épica.

E os meus leitores? Não posso passar dessa para alguma outra com uma música do Queen. Ninguém me respeitaria mais. Apesar de que eu até gosto de Queen.

A faixa única e derradeira seria a sugestiva Velouria, dos Pixies. Não dá para esconder a nossa parcialidade em relação a eles aqui no blog. Eu e Rodrigo Celso somos grandes fãs dos esquisitões de Boston.

Velouria tem tudo: drama, redenção, desejo de morte, viagens místicas. É a melhor canção de guitarra que eu já ouvi. A textura das guitarras (roubando a expressão de David Bowie) faz com que o infinito da morte esteja tão perto que ela pareça iminente. Joey Santiago fraseia ao fundo, durante o verso, chamando ao eu lírico de voz frágil que Black Francis interpreta a pular naquele poço de eco e leve distorção. É a própria morte, a Velouria (velório?).

Say to me/Where have you been/Finally through the roof (Diga para mim/Onde você esteve/Finalmente atravessando o teto). Ela chega então, para buscar esse alguém que canta sobre o brilho do sempre (shine of the ever). A morte é o sempre porque ela está fora do tempo. Não penso ser uma questão de eterno ao lado de Deus e dos que já se foram; é um eterno que não há, que existe ao lado de tudo aquilo que está fora do nosso alcance. O que não é no tempo, não existe de fato. O tempo é que nos torna nós mesmos e nos faz nada novamente.

Nada mais justo do que sempre esperar a morte, adorá-la de um jeito meio estranho: Even I'll adore ya/My Velouria (Até eu irei adorá-la/Minha Velouria). O problema é que não sabemos quando o momento vai chegar. A eterna dúvida é a única certeza, alguém disse.

Velouria prestaria múltiplas homenagens no momento de minha partida: à própria morte, um conceito que é a negação da existência (muito estranho, se me perguntarem), à música, aos Pixies, que são a mais importante influência da minha formação musical, à minha memória, que é toda permeada por canções dos Pixies e ao meu irmão mais velho, que é a minha grande fonte de conhecimentos que eu demoraria a achar se estivesse sozinho nessa.

Morrer, então, seria legal.

Sugiro a todos vocês que façam esse exercício. Não é tão mórbido quanto parece. Na comunidade EU GARIMPO do orkut tem um tópico aberto àqueles que querem fazer o caminho que fiz e compartilhar com todos.

16 fevereiro, 2007

Nova seção: É ruim, mas é bom! [Pitty]


A Pitty faz sucesso, toca em rádio, na MTV, faz festivais com CPM 22, Charlie Brown Jr., vai no Faustão... Ruim, certo? Claro. É mais complexo, porém. É ruim, mas é bom (para inaugurar a nova seção do blog).

A música é mediana, as letras daí para baixo. Ela é (muito!) bonita, politicamente correta, um exemplo para as garotinhas roqueiras que ouvem Avril Lavigne. Provavelmente, para quem está começando a ouvir Rock, não haja coisa melhor. Depois de algum tempo, a gente vai ficando mais exigente (ou simplesmente mais chato...).

Mas tem alguma coisa que incomoda a nós, que nos consideramos superiores a esse tipo de rock. Eu, particularmente não sou superior a ninguém. Gostar de coisa ruim é inseparável do ser humano. Não adianta fingir que você só ouve rock inglês da melhor qualidade o tempo todo, porque eu sei que no fundo do seu armário/case de CDs/prateleira tem alguma coisa escondida.

Você chora quando ouve Toquinho, certeza. Ou então põe um disco do Ugly Kid Joe bem alto quando ninguém está em casa. Quem não se lembra do Dishwalla, mistura de Bon Jovi com Stone Temple Pilots? Você comprou o CD, eu sei que comprou. E ainda tem o maldito guardado “só para lembrar da adolescência”.

Pois bem, eu serei o primeiro a dizer que sim, eu já gostei de um monte de porcarias e continuo gostando. A Pitty é uma das coisas ruins com as quais eu simpatizo.

Para ser sincero, como não gostar dela? Ela é bonita, tem “atitude”, toca guitarra, faz rock pesado e fala de livros nas entrevistas. Que outro músico pop fala de livros hoje em dia? E as letras? Pelo menos ela tenta. Sim, são meio infantis, mas têm o seu valor. Podem procurar, mas eu duvido que alguém que venda tantos CDs quanto ela vende hoje em dia faça letras tão boas.

Talvez a Pitty precise de alguns anos para amadurecer e começar a falar coisas mais profundas. Talvez ela chegue lá. Que ninguém se engane pensando que ela é uma vítima das grandes gravadoras, porque ela não é. O que ela sabe fazer bem é se vender. E eu vou guardar uma ponta de esperança de que ela vai começar a amadurecer, vai um dia fazer rock para mim também.

E para você que se assustou com a foto da Pitty neste blog, prepare-se para mais. Quem disse que garimpar só dá coisa boa?

:: postado por Diogo BarbaRuiva
eugarimpo@hotmail.com